domingo, 3 de outubro de 2010

O armário - capítulo 7

Mas livrai-nos do mal, amém


Diego Maranhão


Está tudo escuro.... Será que eu morri? Será que eu consegui o que queria? Será que eu realmente queria isso?
Abro os olhos e tudo continua escuro... É, eu morri mesmo...
Está clareando. Não claro como se fosse luz do dia. Um claro meio ofuscado. Consigo enxergar melhor agora. Um teto. Um teto verde claro, estranho, mas real. É, eu não morri.
Desconheço qualquer teto verde claro. Com certeza não estou em lugar nenhum que conheça. Começo a ouvir agora. Uma voz aguda de uma mulher que grita com alguém:
- Como você pode não tem nenhum telefone de contato dele? Você não é amigo dele? Precisamos do histórico médico dele para podermos medicarmos caso seja necessário!
- Ué, eu não tenho! Eu não conheço ele! Quero dizer, eu conheço sim, mas... Ahn, eu não sei o telefone dele


Eu reconheço a segunda voz. Essa voz já me causou sentimentos diferente durante algum tempo. Alegria, tristeza, medo. Alguns sentimentos impróprios... É Lucas. Ouvindo melhor a voz dele, me vem uma cena na cabeça.

Estou lembrando melhor agora. Eu estava diante da ponte. Não, eu estava do outro lado da grade. Já estava alí a algum tempo. Só esperando coragem. Coragem para pular, ou coragem para voltar para o outro lado da grade, voltar para minha vida. Sinceramente, não sei qual das escolhas é a pior. Devo ter ficado por alí por uns 10, 15 minutos, e mesmo assim eu não consegui saber qual escolha tomar. Nenhuma das duas escolhas me parecia ser agradável. Mas enfim. Ouvi um carro se aproximar, vejo uma pessoa descer do carro, depois desce outra, e depois mais uma. Três pessoas corriam em minha direção. Naquele momento, já tinha feito minha escolha. Iria pular. Preferia soltar a minha mão do que ter que escutar três pessoas dizendo que eu não sei valorizar a minha vida. Mas, que vida? Esse misto de sofrimento, angústia e desespero poderia ser chamado de vida? Se os três chegassem em minha direção, e eu contasse a minha história, eles me compreenderiam e me ajudariam a pular?


Já havia soltado uma mão, mas de repente, eu vi um anjo do Senhor chegando em minha direção. Um sinal do céu correndo para mim. Aquele primeiro vulto correndo em minha direção na ponte escura começou a tomar forma a medida que se aproximava. E quando estava a menos de 3 metros, eu reconheci Lucas. Respirei fundo, meu estômago veio até minha boca, e tudo começou a se apagar. Mesmo tendo escolhido pular da ponte, eu mudei de idéia na fração de segundo antes de desmaiar. Tarde demais.


Agora eu consigo ouvir outra voz vindo do corredor. Sei muito bem quem é. Cacá. Eu já o vi algumas vezes. A última vez que eu o vi foi ontem. E eu sei que ele me viu também. Mas eu corri a tempo.

A situação está mais clara pra mim agora. Consigo ver e escutar com perfeição. Estou num quarto quase vazio, exceto por uma cama e uma bolsa de soro no alto, de onde desenrola uma corda que vai até a veia do meu braço. A porta está fechada, porém do outro lado dela algumas pessoas discutem alto o suficiente para serem ouvidas daqui. Sei que Lucas e Cacá estão lá. Sei também que estão discutindo com uma mulher, talvez enfermeira, médica, tanto faz.


Agora que estou completamente desperto, todos os meus sentimentos voltaram. Incluindo a vergonha. Não quero ter que encará-los, por isso vou ficar aqui até conseguir pensar em alguma desculpa que não seja o suicídio. Apesar do que, não iria adiantar se eu falasse que estava do outro lado da grade de uma ponte aquela hora da noite simplesmente tomando um ar ou vendo a paisagem. Ai, meu Deus, o que eu faço? Meu Senhor, me mande um resposta. É melhor ficar aqui deitado mesmo e esperar


Um segundo depois ouço uma voz chegando ofegante. É a voz de Jonas. Claro, tinha que ser. Sempre foi assim na época de colégio e mesmo depois dele. Por onde andava o Lucas, Jonas estava lá. Jonas parece chegar correndo à discussão e diz
- Consegui! Consegui! Liguei para um pessoal da escola e consegui o telefone da casa dele. Vamos ligar para os pais dele.


Não, isso não. Levando da cama o mais rápido que posso, levando o soro comigo, e abro a porta
- Não, isso não!!
- Diego? - Cacá é o único que consegue dizer meu nome
Jonas e Lucas estão olhando para mim como se eu fosse um morto que renasceu. A enfermeira olha como se estivesse aliviada por eu ter acordado


- Eh... Por favor... Não ligue para meus pais...
- Diego, você tá bem? - Diz Jonas preocupado
- Sim, sim. Eu tô ótimo. Desculpe o transtorno, eu estou bem. Só desmaiei


Todos fazem um grande silêncio. Ninguém sabe muito bem o que dizer, muito menos eu. Jonas me olha como se eu fosse um amigo de longa data e ele estivesse preocupado. Cacá me lança um olhar desconfiado, como se eu pudesse tentar qualquer outra coisa agora mesmo. E Lucas me olha como se estivesse tentando entender quem eu sou.


Mas, quem sou eu?


Minha história é a seguinte.
Sou o segundo filho de uma família de 5 irmãos, todos batizados em nome de Jesus e ungidos pelo Espírito Santo. Fomos criados segundo as leis da Igreja Católica, seguindo rigorosamente seus mandamentos. Dia de rezar é dia de rezar, dia de jejum é dia de jejum! Posso contar nos dedos as vezes que faltei numa missa durante os anos de minha vida.


Dos meus 4 irmãos, fui quase o pai dos 3 mais novos e torturado pelo mais velho. Mesmo assim, tivemos uma infância feliz, até mais ou menos meus 13 anos de idade. Foi nessa idade que comecei a ser tentado pelo demônio. Me lembro como se fosse ontem aquele dia. Em um sábado comum, alguns primos foram ao clube e me chamaram. Três primos, na época com idade entre 20 e 25 anos. Tivemos uma ótima tarde, ficamos na piscina, lanchamos e até jogamos bola. Antes de ir embora, sugeriram passarmos todos no vestiário para tomar banho. Chegando lá, o demônio deu sua primeira cartada neste jogo. Foi naquele dia que o demônio iniciou esta batalha, a qual estou lutando até hoje.


Meus três primos chegaram no vestiário totalmente vestidos, e lá dentro, começaram a tirar a roupa. Quando os três estavam só de sunga, eu não conseguia mais me mover. Ao ver o primeiro tirar a sunga, eu senti coisas que nunca havia sentido antes. O segundo, meu primo mais velho, também ficou completamente pelado, enquanto nem respirando eu estava. Antes do terceiro fazer a mesma coisa, eu saí correndo dalí. No momento que eu pisei do lado de fora do vestiário, eu sabia muito bem o que era aquilo que eu estava sentindo. Eu sabia o nome daquilo, mas eu não acreditava que estava acontecendo comigo. Não, não estava acontecendo comigo, foi só impressão minha... Meus primos estranharam, perguntaram se estava tudo bem, mas dizendo que era somente um mal estar, tudo se esclareceu, e fomos embora momentos depois.


Depois daquele dia, fiquei um bom tempo com aqueles pensamentos afastados de minha cabeça. Eu ganhei algumas batalhas, o demônio ganhou outras... Enquanto eu ganhava, eu procurava manter a calma e ficar afastado de qualquer tentação, incluindo meus primos. Quando o demônio vencia, eu me afundava em promessas a quantos santos forem necessário.


Muita coisa aconteceu para que pudesse chegar ao ponto que está hoje em dia.
Voltando à realidade, todos continuam olhando para mim, sem saber o que fazer. Até que a enfermeira pergunta:
- Você faz uso de alguma medicação de uso contínuo?
- Não, senhora...
- Não precisa me chamar de senhora. Você já teve histórico de desmaio, convulsão, taquicardia?
- Não, nada disso
- Você sentiu alguma dor antes do desmaio? De que você lembra?
- Só o que eu lembro é que...


Antes de terminar a frase, sou interrompido por Lucas
- Eu já te disse isso 5 vezes, moça! Nós 4 estávamos passeando pela ponte da cidade, e de repente o Diego começou a se sentir mal e desmaiou.
- Sim, eu já ouvi isso de você 5 vezes! Agora eu posso ouvir a versão do seu amigo, por favor?


Lucas fica em silêncio, indignado. Então ele não contou nada para ela? Ele está tentando me encobrir? É melhor mater essa versão mesmo... A enfermeira pergunta.
- E então, posso saber de você o que aconteceu?
- Ahn... é isso mesmo. A gente estava andando, eu comecei a me sentir mal e desmaiei...

Ela me olha desconfiada, mas cede
- Ok. Vou te encaminhar para um médico para ele fazer alguns exames e ver se posso te liberar. Vocês três, fiquem aqui esperando...


Enquanto eu virava as costas e acompanhava a moça, podia ouvir o Lucas sussurando "enfermeira chata...". Pela primeira vez hoje eu consegui sorrir. Pela primeira vez em muito tempo eu consegui sorrir. De uns tempos para cá, o demônio vem ganhando mais batalhas que eu. Mas eu vencerei a guerra, tenho certeza...


Depois de alguns minutos e poucos exames, volto para o lugar onde estava. Lá, ainda se encontravam Jonas e Cacá.
- Gente, não precisava ter me esperado não. Já valeu tudo o que vocês fizeram até aqui por mim.
- Preocupa com isso não, Diego. Amigo é pra essas coisas


Amigo? Conheço Jonas a muitos anos e ele nunca me chamou de amigo. Sei que na cabeça dele eu sempre fui o menino estranho da sala.
- E o Lucas, foi embora?
- Ahn, foi dar umas voltas, deve estar tentando arrumar um homem pra...

Antes de Cacá terminar a frase, Jonas dá um empurrão e termina a frase por ele:
- Ahn, deve estar por aí. Vamos sentar aqui, enquanto a gente espera ele voltar


Eu realmente queria sair dalí agora e ir embora correndo. Mas depois de tudo que esses meninos fizeram por mim, não queria parecer mal agradecido. Sentamos, ficamos um tempo em silêncio, até que Jonas pergunta.
- Eh... Diego... Bom. O que exatamente você estava fazendo lá naquela ponte?


Não consigo dizer uma palavra. Continuo de cabeça baixa por longos segundos, pensando no que dizer. Até que Jonas toma a iniciativa de novo.
- Não, tudo bem. Já tivemos muita emoção por hoje. Amanhã nós conversamos sobre isso...


Amanhã? Como se fôssemos amigos e amanhã eu fosse na casa dele jogar video game... Não quero parecer mal agradecido, mas também não quero as pessoas com pena de mim.

Mais alguns longos segundo, Lucas não volta ainda. Cacá pergunta
- Diego, posso fazer uma pergunta?
Se eu pudesse, diria "não". Mas eu disse sim
- Eu tive a impressão de ter te visto ontem. Vc estava passando alí perto daquela boite nova que tava inaugurando?


Essa pergunta eu tenho que responder:
- Não, claro que não. Ontem eu fiquei em casa. Eu não saí ontem... Não mesmo.

E mais alguns longos segundos de silêncio. De repente, do fundo do corredor, vem Lucas andando em nossa direção apressado. Assim que ele percebe que nós os vimos, ele somente diz "Vem, estou indo pro carro", vira as costas e sai mais apressado ainda. Atualmente tenho muito pouco contato com Lucas, mas qualquer um notava que seus olhos estavam vermelhos.


Vamos para o lado de fora do hospital e Lucas já está dentro do carro. Chegando mais perto, podemos ouvir barulho de choro. Não um choro normal, mas quase um choro de criança. Assim que ele levanta a cabeça e nos vê, limpa rapidamente as lágrimas e abre a porta do carro. Entramos, sentamos. Lucas, ainda com a voz fraca, me pede para dizer o caminho da minha casa. Jonas pergunta

- Lucas, tá tudo bem?

- Tá sim... tá sim... Diego, vai me dizendo o melhor caminho para chegar lá

Eu só concordo com um aceno de cabeça. Nenhuma outra palavra é dita até o caminho de casa. Os olhos de Lucas estão tão perdidos que poderiam errar o caminho a qualquer momento... Eu desco, agraceço mais um vez a todos e fecho a porta. Vejo o carro dobrar a esquina e entro em casa. Assim que entro, meu pai me recebe:

- Diego, você sumiu por muito tempo, e nem levou o celular. Onde você estava? Tá tudo bem?


Eu olho nos olhos do meu pai. Queria dizer tanta coisa. Queria dizer: me desculpe. Ou então: socorro, me ajuda. Mal ele sabe de tudo que aconteceu esta noite. Mal ele sabe de toda a guerra que eu venho vivendo. Mal sabe que o demônio vêm ganhando tantas batalhas... Queria olhar nos olhos dele e dizer tanta coisa... Então eu digo


- Tá sim, pai. Tá tudo bem

O armário - capítulo 6

O peso das atitudes que tomamos sempre retorna, nem que seja como um peso na conciência.

Lucas Brandão

Mesmo com os olhos fechados, sempre sabemos a hora do dia. Você pode estar embaixo do cobertor, com a cortina do quarto fechada, mas sempre sabemos que parte do dia é. Acordei e fiquei com o olho fechado por um tempo, mas sabia que era tarde. Engraçado, por um segundo, era a única coisa que eu sabia. Estava no meu quarto, dormindo no meio da tarde. Falta de memória, dor de cabeça, intolerância à luz, gosto estranho na boca. Isso só poderia ser ressaca. Um jato de memória me veio à cabeça. Inauguração da nova boite da cidade. Madame Joaninha. Aff... nome estranho... Cacá convidou a gente, parece que um conhecido de um peguete dele ia tocar lá, ou algo assim, até reunimos no shopping essa semana, conhecemos o André e o Lourenço... Ahn, mais um jato de memória, fila da boite, luzes, bebidas, encontramos com o André e o Lourenço lá dentro... Engraçado, não lembro de ter bebido tanto. Na verdade, não lembro de mais nada. Meu carro! Como eu voltei pra casa? Tô deitado na minha cama, de cueca. Alguém me deu banho? Essa é a mesma cueca que eu usei ontem? Como não consigo lembrar de nada?

O Cacá deve ter me deixado em casa. Pego meu telefone e ligo para ele. O telefone toca até desligar. Tento de novo, parece que toca duas vezes e a ligação é cancelada. Engraçado, se eu não conhecesse o Cacá, diria que ele desligou pra não me atender, mas ele não faria isso. Ahn, tanta coisa a mais para me preocupar, essa dor de cabeça...

Levanto, e vou lavar o rosto. Meu nariz está sensível. Olhando mais perto, vejo que ele está um pouco vermelho. Esquento um resto de almoço no microondas, e enquanto isso, meu telefone toca, provavelmente o Cacá estava dormindo quando eu liguei e agora ele está me retornando. Na verdade, era o Jonas.

- Fala, bicha!
- Lucas, você tá bem?
- Calma, que voz desesperada, tô bem sim... Na verdade, eu tô com uma ressaca filha da mãe. O mundo tá todo rodando... Tem notícias do Cacá? Não tô conseguindo falar com ele no telefone...
- Cara, acho que é melhor você dar um tempo pra ele, amanhã vocês conversam...
- Dar um tempo, como assim? Aconteceu alguma coisa séria ontem? Quem me trouxe pra casa, você sabe?
- Você não lembra de nada que aconteceu ontem?
- Sério, não lembro! Não lembro nem de ter bebido tanto assim... Me fala, o que aconteceu?
- Lucas, vou dar uma passada aí, blza? Pessoalmente a gente conversa...

Isso agora me preocupou. Já bebi outras vezes, já esqueci o que fiz, mas ontem eu não estava assim. Sim, eu esqueci, mas eu não bebi tanto assim. Eu estava dirigindo, eu nunca faria isso. Será que eu bati o carro? Vou até a garagem, parece que está tudo bem com o carro... Melhor esperar o Jonas chegar mesmo. Termino o almoço, arrumo o meu quarto e entro no banho. Assim que termino, escuto a campainha, enrolo em uma toalha e vou atender.

- Que bom que você chegou, Jonas, eu já tô preocupado.
- Pois é, cara. Achei melhor a gente conversar pessoalmente.
- Claro, claro... Vem cá pro meu quarto que eu só tenho que vestir uma roupa

A preocupação toda no rosto do Jonas some e é substituída por tensão. Ele começa a gagejar
- Ahn, eh... Quero te atrapalhar não, veste uma roupa que eu fico te esperando aqui...
- Larga de besteira, Jonas, vem cá

Entramos no quarto e eu fecho a porta. Enquanto eu procuro uma cueca limpa, percebo que a tensão no rosto do Jonas aumenta. Ele começa a falar, mas sem olhar pra mim. O olhar do Jonas está perdido, parece que está procurando um ponto no quarto em que ele possa fixar o olhar
- Então, vocês brigaram feio ontem lá na boite.
- Nós quem? Eu e o Cacá brigamos?

Encontro uma cueca, me desenrolo da toalha e a visto. Jonas parece que está quase se levantando para ir embora
- É, vocês dois. Ele te deu um soco que arrancou sangue do nariz. Engraçado, você não lembra disso?

Levo um susto com isso. O Cacá, me bateu? Pensei que eu pudesse ter caído, por isso o nariz estava doendo. Mas o Cacá me bateu? Sento do lado de Jonas e coloco a mão na perna dele.
- Eu não tô acreditando nisso. Você tá falando sério mesmo.
Jonas parece não estar mais ouvindo o que estou dizendo. Nunca o vi tão tenso assim. Dá para sentir ele contando a própria respiração. Tanta coisa aconteceu e eu não sei...

- Foi você que me deu banho?

Uma noite apagada da minha memória. Tantas dúvidas sobre o que aconteceu, tantas perguntas que eu podia fazer, mas parece que eu fiz a pergunta errada. A tensão toda no rosto do Jonas parece que explodiu depois da última pergunta.
É a segunda vez que ele levanta e vai embora da minha casa. Dessa vez, menos educado que na primeira. Com um simples "tenho que ir", ele levantou e saiu...

Eu simplesmente não consigo acreditar nisso. De repente, todo o problema do Cacá desapareceu da minha cabeça. Atualmente, o Jonas tem ficado muito tenso quando está perto de mim. No shopping, a gente foi ao banheiro, ele nem olhou na minha cara... Aqui, neste mesmo quarto, na semana passada...

O Jonas sempre foi um cara muito certinho. Certinho ao ponto de ser careta. O Cacá não, ele é meu companheiro de máfia, conversamos sobre tudo, principalmente sobre sexo. Esse tipo de coisa é tabu com o Jonas. Não sei porque sexo é tão tabu hoje em dia... Todo mundo faz, todo mundo vai fazer. Lembro como foi minha primeira vez...

Não tinha nem duas semana que eu tinha começado a conhecer o meio gay. Sempre que podia, eu ia a uma boite que tinha no centro da cidade, e chegando lá, tentava me inturmar em algum grupo que parecesse amigável. Foi numa dessas que eu conheci um cara no balcão do bar e ele me chamou para conhecer a turma dele. Pelos olhares, eles sabiam que eu era novato no meio. Às vezes, o meio gay pode parecer muito repetitivo, e sempre que aparece uma "carne fresca", ela fica em promoção no açougue. Esse cara, não me lembro o nome dele, me apresentou para os amigos em voz alta. Uma rodinha de 6 ou 7 pessoas. Enquanto eles iam dizendo o seu nome, um deles grita "é carne fresca no pedaço". Não consegui identificar de onde vinha a voz, mas depois disso, começaram os murmurinhos e comentários. Então, os comentários viraram um questionário. Todos começaram a me fazer perguntas em voz alta, e eu me tornei o centro das atenções do grupo. "Onde você mora?", "o que você faz da vida?", "a quanto tempo você está no meio?". Mas, para eu me tornar o centro definitivo das atenções bastou somente uma pergunta: "você é virgem?". Essa pergunta eu vi muito bem de onde vinha. Dinho, aparentando ter uns 30 anos, com camiseta regata preta, me chamou a atenção não pelo rosto, mas sim pelo tamanho dos braços à mostra. Como responder a essa pergunta? Respondo "não", e tento mostrar que entendo do assunto? Tenho só duas semanas no meio gay, estou querendo conhecer pessoas e lugares, o melhor é responder a verdade.

Assim, eu disse "sim, eu sou virgem". A gritaria e o questionário terminaram e começaram os cochichos. Eu continuava o centro das atenções, mas agora eu era o centro de uma roda em silêncio. Todos pareciam tratar estratégias, mas Dinho, já que foi ele que fez a pergunta, se sentiu no direito de agir mais rápido. Me puxou pelo braço e me levou para um canto. A virgindade não foi mais assunto. Conversamos muito, beijamos, bebemos, e quando estava perto das 3 da manhã, fomos embora. Ele se ofereceu para pagar a minha conta na boite, e se ofereceu para pagar um táxi. Não me preocupei em dizer meu endereço para o motorista. Já sabia o que ele tinha em mente e concordava com isso. Paramos em uma casa com uma entrada velha. Passamos por um corredor feio e chegamos em um quarto pequeno, com um banheiro e uma cozinha, e completamente desorganizado.

Até aquele momento, o excesso de carinho que ele me dava me faziam pensar que ele fosse rico. Mas essa não era a questão. A conta paga, o táxi, era tudo um investimento. Eu era um cara virgem, coisa difícil de se achar, e valia a pena pagar por isso. Hesitei por um segundo, mas dei continuidade. Meia hora depois, eu tinha descoberto um novo mundo de possiblidades. Quando eu comecei a sair para o meio gay, achava que tinha encontrado um céu de possibilidades, mas depois desta noite, eu vi que após o céu, tem um universo.

Ainda meio zonzo, começo a juntar as minhas coisas. Dinho insistiu para que eu ficasse, dormisse alí. Dormi, mas tão logo acordei, já fui embora, deixando apenas um bilhete com o meu número de telefone do lado da cama. Ele não ligou. Isso não me assustou, nem me aborreceu. Para que me prender? Eu tinha encontrado o universo. Pouco tempo depois disso, num dia que minha casa estava vazia, entrei na internet para ver se encontrava outra pessoa para poder repetir a dose dessa droga que eu tinha me viciado. Foi então que eu encontrei Cacá. E foi alí que surgiu nossa amizade.

Amizade essa que hoje está suspensa, por causa de um soco no nariz. Ou talvez por causa de uma briga, que eu nem sei por que aconteceu. Tento ligar no telefone do Cacá de novo, novamente toca até desligar. Tento ligar para o Jonas, a mesma coisa. Como é que a gente foi chegar nesse ponto? Sempre fomos tão amigos.

O dia foi passando, com muita televisão, computador e remédios para dor de cabeça. Quando já estava de noite, eu tentei novamente, primeiro o Cacá, depois o Jonas. Nenhum dos dois me atende.
Cacá me deu um soco no nariz e não me atende. Jonas não consegue mais ficar do meu lado. Existe uma noite inteira que não está na minha memória. Foi aí que eu resolvi tomar uma atitude drástica. Peguei o carro e dirigi até a casa do Jonas

- Jonas, entra aqui.
- Que foi, Lucas?
- Entra no carro, a gente vai dar uma volta
- Não, Lucas! Você tem que parar com isso, a gente é amigo.
- Parar com isso o que? Você tá louco? A gente vai dar uma volta...
- Cara, eu não quero ser mal educado com você, vamos deixar isso pra lá, isso nunca vai dar certo...

De repente, uma grande ficha caiu. Estava tudo tão óbvio, como eu nunca percebi isso antes?
- Jonas, você pensa que eu tô dando em cima de você?
- Ahn, cara, vamos escquecer isso, a gente não fala mais sobre o assunto, a gente pode parar de sair por uns tempos pra ver se você deixa isso...
- Jonas, eu não estou dando em cima de você!!
- Ahn, mas...
- Entra aqui, vamos dar uma volta

E saímos em direção à casa de Cacá
- Como é que você pode pensar que eu tava dando em cima de você? A gente é amigo a tanto tempo...
- Ahn, não sei, cara. Eu tô confuso... Você sabe, você é diferente... Você é mais...
- Mais? Eu sou mais o que?
- Não sei como dizer, você vê as coisas diferentes do que eu.

Uma veia que eu nem sabia que existia começou a pulsar na minha cabeça
- Você tá querendo dizer que eu sou atirado, vagabundo, durmo com qualquer um, não tenho critério...
- Não generaliza, Lucas, eu não disse isso... Só tô dizendo que você é mais pra frente...
- Pra frente?? Você vai pra balada e fica com 2, 3, igualzinho a mim!!

Jonas não sabe mais o que falar. A tensão no ar é tão densa que podia ser tocada. Jonas vive em seu próprio mundo, onde não se fala sobre sexo, e talvez nem se faça sexo. Qualquer pessoa fora deste mundo é um vagabundo que deita com o primeiro que vê pela frente. E mesmo se deitasse, qual o problema?
Sempre fomos muito diferentes. Sim, talvez parte do que o Lucas tenha falado tenha sentido. Mas pensar em dar em cima de meu amigo, que eu conheço a anos, é ultrapassar qualquer limite. Pode me chamar de qualquer coisa, mas este limite eu nunca ultrapassaria.
O discurso está pronto na minha boca, mas acho melhor não falar. Os sentimentos acumulados podem me forçar a dizer essas coisas num tom mais agressivo que eu faria numa situação normal.

No mais, eu só paro o carro em frente à casa de Cacá.
- Liga para o Cacá, fala para ele chegar aqui fora

Poucos segundos depois de Jonas discar, Cacá aparece do lado de fora. Jonas fala para ele entrar e ele senta no banco de trás, sem hesitar, mesmo depois de ver que eu estava dirigindo.
Antes de começar qualquer outra discussão, descarrego todo os meus sentimentos
- Cacá, sei que você está com raiva de mim, eu não sei o que eu fiz, mas me desculpe. Não sei o que aconteceu ontem, não consigo lembrar, mas mesmo assim peço desculpa, e acho que você também me deve desculpa pelo soco no nariz que você me deu.

O carro vira a esquina duas quadras depois. Cacá parece sem muita vontade de dar um pedido de desculpa:
- Olha, Lucas. Ontem foi a gota d'água, eu não aguento mais essas brincadeiras. A gente já conversou sobre isso, e eu já pedi pra você parar com esse apelido...

O carro para num semáforo. Sei que deveria estar sendo compreensivo, mas não consigo. A tensão que havia diminuido, começou a aumentar de novo:
- Conversou sobre o que? É sobre aquela história de "princesa"? A gente nem conversou sobre isso? Você deu um chilique e a gente ficou sem entender
- Cala a boca, Lucas. Você não sabe o que tá falando

O semáforo abre. Jonas resolve entrar na discussão
- Ele tem razão, Cacá. Você se alterou demais. Não tem como a gente te compreender, se a gente nem sabe o que ta acontecendo
- Não entra no assunto, Jonas, eu não quero brigar com você também

O carro faz uma curva, em direção a um viaduto. Eu não consigo me controlar:
- Pois é, Cacá! O que tá acontecendo, pô? Fala com a gente. Você só tá fazendo que esse clima ruim continue por mais tempo. Você não confia na gente??

O carro entra no viaduto. Cacá parecer não preocupar em manter o respeito na conversa:
- Confiança?? Você vem me falar de confiança? Tem outros valores nessa amizade que já se perderam, não? Como o respeito! Eu só pedi para esse assunto não ser mais tocado, e olha o que vocês fazem? Me sequestram no meio da noite para poder me fazer esse interrogatório
- Sequestro? Interrogatório??? Acho que amigos preocupados agora mudou de nome? Bom saber o rumo que essa nossa amizade tomou

Nesse momento, Jonas dá um grito. Seu olhar está fixo em algum lugar do lado direito do viaduto.
- Gente! GENTE!! Tem uma pessoa alí! Tá do lado de lá da ponte, parece que vai pular...

Um vulto se segurava por apenas uma mão, parecia estar preste a saltar dalí. Embaixo, somente asfalto a uns 7 metros de altura. Eu acelero o carro e paro do lado do vulto. Enquanto ainda tirava o cinto, Jonas disse algo que fez meu coração parar por alguns segundos:

- É o Diego

O armário - capítulo 5

O passado possui apenas duas funções em nossa vida: construir a nossa personalidade e destruir a nossa personalidade


Carlos Portugal


Madame Joaninha! Não sei como funciona a vida de um dono de boite. Ok, um dia ele acorda e fala: "vou fazer uma boite gay! Tem tanta bicha no mundo, deve dar certo". Mas e nome? Será que tem pessoas contratadas exclusivamente para criar nome de boite gay? Geralmente são misturas de cores e nomes de animais ou nome de pessoas. Toda boite gay possui um nome diferente. Deve significar como um aviso para os héteros. Um hétero que resolve conhecer as boites da cidade nunca entraria em um lugar que se chama Madame Joaninha! Tá na cara que é uma boite gay!


Enfim, o que importa é que o namorado do amigo de um amigo do menino que eu tava ficando é DJ e vai tocar na Madame Joaninha, uma casa nova que tá abrindo. Na quarta ele me avisou isso, falou que o lugar vai ser super bem frequentado, então já resolvi ir. Mandei uma mensagem para os meninos na mesma hora, e após a confirmação, recebi uma outra mensagem do Jonas, chamando para comer algo no shopping. Hum... ok!


- Jonas, você tá legal? Jonas, você tá um pouco branco...
- Cara, tô ferrado.
- O que foi, Jonas? Quem era aquele menino que estava aqui na mesa com você?


E Jonas contou sobre a faculdade, o time, o menino da faculdade, sobre o fato dele não poder de jeito nenhum sair do armário para o pessoal da sala dele. Em momento nenhum ele me culpou, mas eu sei que a culpa é minha. Nós gays não nos importamos com esse tipo de coisa. Eu, Lucas, o Pedro e o Lourenço na mesa do lado fechando e rindo alto... Eu entendo que ele não queria que o menino visse que ele estava com a gente e nesse momento eu voltei à mesa para pegar o celular dele. Jonas tem um jeito cuidadoso de falar esse tipo de coisa: "eu não queria que ele pensasse que eu estava com aquela bicha pintosa da outra mesa...", mas não era só a bicha pintosa. É todo o contexto gay que foi formado na mesa ao lado. Mas eu entendo...


Sim, o Pedro e o Lourenço. Pedro tem cara de ser mais velho, mas é bonito. Loirinho, carinha de importado... O Lourenço... bom, digamos que ele tem traços bonitos. Ok, vou ser honesto, ele é uma mocinha... Mas esses são os melhores, os mais engraçados! Os estereótipos são sempre os mais engraçados da roda. Ou é o gordinho, ou o afeminado, o travesti...


Nem deu tempo de explicar para o Jonas quem era Pedro e Lourenço, os meninos da mesa ao lado. Depois da confusão armada, cada um foi para sua casa.

Ah, minha casa. A fonte de todos os meus problemas! Não toda ela, mas minha mãe ajuda muito... Eu lembro como foi a primeira vez que eu saí para uma boite gay. Tinha conhecido Lucas a poucos dias até que ele me ligou lá em casa. É claro, minha mãe atendeu. Minha mãe sempre fez questão de conhecer todos os meus amigos. Acho que assim ela pensa ter mais controle sobre aonde eu vou. Depois que desliguei o telefone com Lucas, ela foi imediatamente ao meu quarto.

- Quem era ao telefone?
- Lucas, um amigo meu
- Lucas? Engraçado, nunca ouvi falar dele. Você conheceu onde?
- Ahn, mãe. Amigo de amigo.
- Hum... vocês vão sair hoje?
- Ahn, não sei, mãe. A gente vai reunir o pessoal na casa de alguém e depois decidir


O único jeito que consegui para dobrar minha mãe é responder muitos "não sei". Ela sempre pergunta aonde eu vou, e com quem eu vou. Eu sempre saio com "a galera", e nunca sei pra onde vamos.


Este sábado não poderia ser diferente.

- Vai sair?
- Sim, vou encontrar a galera
- Você tá saindo demais, não? Aonde você vai?
- Ahn, vamos encontrar no centro e depois decidir...


A mesma desculpa, mas hoje a boite é nova. Vamos conhecer a Madame Joaninha.
Lucas me buscou em casa, depois buscou o Jonas, e fomos para a boite. Marcamos de encontrar com Pedro e Lourenço lá na porta. Como toda inauguração, uma fila enorme na porta. Jonas parece melhor que ontem, mas mesmo assim, eu prefiro perguntar:

- E aí, Jonas? Melhor?
- Ahn... Tô tentando não pensar nisso. Espero que ele não tenha notado nada... Mas enfim, não me resta nada a fazer
- Pois é, cara. Relaxa. Vai tá cheio de bofe bonito aí hoje, você vai esquecer isso rapidinho...


Nunca tive muita paciência para filas, mas enfim, quem tem? Depois de vinte minutos e a fila andou pouco. Eu olho para o lado e levo um susto como se tivesse visto um fantasma. Mas um fantasma que em pouco tempo some no meio da multidão. Não sei, só vi de relance... será?

Finalmente, quase perto da meia noite, conseguimos entrar. A sensação é a mesma de entrar em um carro novo. Tudo é bonito, o cheiro é de novo e o som é limpo. Mas é só rodar alguns quilômetros que ele vai parecer exatamente igual aos outros.


Uma da manhã, já encontramos com Pedro e Lourenço. Pedro sabe que parece estrangeiro e faz de tudo para parecer mais ainda. Blusa de manga comprida com a manga dobrada até o cotovelo, jeans, sapato e cinto. Todos se juntam em uma roda só, até que o Jonas me chama num canto

- Você não acha que o Lucas tá bebendo demais não?
- Calma, Jonas. Deixa ele curtir a noite.
- Pois é, mas ele tem que dirigir hoje ainda
- Por isso mesmo, ele sempre tem que dirigir, e nunca pode beber, deixa ele curtir só hoje...


Duas da manhã continuamos em roda, agora dançando na pista. Jonas sumiu já faz algum tempo, mas eu imagino o que ele esteja fazendo. Lucas continua bebendo, andando torto. Bom, pelo menos ele ainda consegue ficar em pé. Lourenço está a um tempo olhando para um cara do outro lado da pista. Alto, malhado, camisa de manga.
- Gente, tem um bofe mara olhando pra mim do outro lado da pista.
- Sério, Lourenço? Cadê, mostra ele.
Lourenço aponta para um gostosão com cara de desprezo do outro lado do salão. Lucas, com o olhar já um pouco torto esboça um sorrizinho. Lourenço percebe
- O que foi? Ele não pode estar olhando pra mim não?
- Ahn, cara. Presta atenção. Um homenzão daquele?
Estou começando a dar razão para o Jonas, talvez o Lucas tenha bebido demais
- Ok, bonitão! Você fala como se toda a boite estivesse olhando para você. Larga de ser invejoso
- Vai se fuder, bichinha! Olha bem como você fala comigo!

Antes de começar a abrir a roda, eu puxo o Lucas para um canto.
- Pô, Lucas! Tá querendo ser expulso daqui?
- Ahn, essa pintosinha ficou me enchendo o saco. Fica se achando a Juliana Paes, pensando que a boite inteira tá olhando pra ele. Essa mocinha...
- Cara, não tá na hora de você parar de beber, não? Já deu muita confusão por hoje e você ainda tem que dirigir.
- Ahn, Cacá... Larga de ser chato, me larga


Lucas me solta e cai num sofá. Corro para perto do bar e encontro Jonas trocando telefone com um cara. Sem medo de parecer mal-educado, puxo o Jonas, que quase não tem tempo de despedir do peguete
- Calma, Cacá! Precisa disso tudo?
- Cara, eu não tô aguentando isso mais...
- Ahn não, lá vem você de novo... Eu juro que desta vez eu passei o meu telefone certo!
- Pára, Jonas, não é isso. O Lucas tá insuportável. Ele bebeu demais, xingou o Lourenço, quase saiu no tapa.
- Sério? Cadê ele?
- Tá jogado num sofá alí. Eu desisto dele! Vai lá pelo menos convencê-lo que ele não pode voltar dirigindo...


Lucas quase desmaiado, Jonas tomando conta dele. Confesso, só consigo pensar em uma coisa: correr atrás do prejuízo. É assim mesmo! Pergunte para todos os gays da boite, o que foram fazer alí. 70% falam que foram dançar, se divertir, 30% falam que foram conhecer pessoas diferentes, mas 100% dos homens gays solteiros em uma boite estão alí para beijar na boca. Ok, às vezes a intenção é um pouco maior que isso, mas o começo de tudo é o beijo. E eu nem cheguei perto de beijar hoje. Tô deste quinta investindo no Pedro, acho que depois dessa, as minhas chances foram pro espaço!

Três da manhã, vejo o Lourenço num canto pegando o gostosão (ou sendo pegado), as pessoas começam a ir embora, e as músicas começam a ficar iguais. A cada 10 minutos eu passo no sofá, mas nem sinal de Lucas ou Jonas. Num destes intervalos entre vigiar o sofá e procurar um rosto diferente na pista de dança, eu vejo o Jonas.

- E aí, Jonas, cadê o Lucas? Tô procurando vocês a um tempão.
- Ahn, a gente tava no banheiro, ele vomitou muito...
- E agora, onde ele está?
- Tá alí jogado no sofá, acho que tá meio dormindo. Escuta Cacá, aconteceu uma coisa estranha...
- O que? O Lucas brigou com mais alguém?
- Não, não é isso... assim... no banheiro... Escuta, Cacá, você acha que existe uma chance do Lucas estar dando em cima de mim?
- Ahn, cara, não esquenta não. O Lucas hoje tá estranho. Ele tá falando coisas sem sentido... O que aconteceu no banheiro?
- Eu não digo só por hoje. Você acha que ele pode estar interessado? Ele falou isso para você algum outro dia?
- Ahn, Jonas... Acho difícil. Tipo, é o Lucas, vocês se conhecem a tanto tempo. Estudaram juntos no colégio. Ahn, por falar nisso, o tal do Diego que estudou com vocês, lembra?
- Lembro sim, o que tem?
- Eu tive a impressão de ter visto ele hoje. Na fila para entrar aqui.
- Você tá falando sério?
- Ahn, mais ou menos, foi muito rápido. Eu não conheço ele direito, não sei dizer com certeza. Vi um vulto, achei que fosse ele.
- Pois é, o Diego tá muito estranho


E então Jonas é empurrado pra frente, e quase cai no chão. Lucas surge por trás, rindo e querendo agradar:
- E aí, meninas, o que vocês estão fazendo?
- Calma, Lucas, você quase jogou o Jonas no chão
- Mas ele tá de pé, não tá? Para de fazer alarde por qualquer coisa...
- Eu fazer alarde por qualquer coisa? Não foi você que quase saiu no tapa com o Lourenço?
- Ahn, aquela bichinha tava me provocando e você fica defendendo ela! Cara, não tô te suportando hoje. Me dá a chave, vamos embora
- Lucas, você já tirou todo mundo do sério hoje. Você não vai dirigir esse carro.
- Ahn é? E quem vai dirigir, a princesa aí?


Estas palavras me acertaram mais forte do que da primeira vez. Num impulso eu fechei o punho, depois fechei os olhos e usei toda a força que me restava. Quando abri meus olhos, só consegui ver o Lucas desmaiado no chão. O sangue do nariz escorrendo para a boca, Jonas agachando no chão... mais nada...
Virei as costas e saí. Não ia adiantar ficar alí, a multidão iria se formar e eu seria expulso mesmo


Não adiantaria ficar alí, ninguém ia entender o meu lado da história...

sábado, 2 de outubro de 2010

O armário - Capítulo 4

Se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar que tudo era pra sempre, sem saber que "pra sempre", sempre acaba...

Jonas Araújo

Engraçado... Tem dias que parecem durar mais que um dia. A segunda feira durou uma semana. Não sei o que está acontecendo com o Cacá, com o Lucas. E comigo? O que está acontecendo com a gente?
Não nos falamos todo dia, mas chegar na quarta feira sem notícia nenhuma foi muito estranho. No final da tarde de quarta, chega uma mensagem do Cacá.

"Boite nova inaugurando nesse sábado. Lógico que vamos, né? Bjo"

Não sei se às vezes eu dou muita importância para algumas coisas, ou os meninos não ligam para este tipo de coisa. Assim funciona o mundo gay. Pelo menos eu sempre entendi assim. As coisas são sempre muito fáceis. Os relacionamentos são rápidos, o sexo é uma coisa casual, uma briga pode parar a música e fechar a boite, e na próxima semana as pessoas estão dançando junto, as vezes ficando...
Os sentimentos são momentâneos. As pessoas se amam, se odeiam, e alternam estes sentimentos durante a noite

Talvez esteja mesmo dando muita importância às coisas. Cacá e Lucas são meus amigos. Me lembro quando eu tive aquela conversa. Muita coisa mudou aquele dia, a vida nunca foi a mesma daquele dia em diante. Estava passeando pelo shopping e encontrei com a Carla.

- Que bom te encontrar aqui, como tá o pessoal? Perdi o contato com todo mundo. Só encontro com o Lucas. Ontem mesmo eu conversei com ele, ele tá meio triste, terminou com o Renan. Vou dar uma passada na casa dele nessa sexta. Mas eu conheço ele, sei que no sábado mesmo vamos sair pra balada, ele vai ficar com 3 e esquecer isso tudo...

As palavras dela me deixaram mudo por algum tempo. Para não deixar a situação mais constrangedora, eu fingi que sabia de tudo e estava tudo bem. Mas eu não sabia, eu conhecia o Lucas a tantos anos e não sabia que ele estava namorando, ou que ele namorava homens, ou saía pra balada.

A Carla estudou na mesma época com a gente e nunca teve vergonha de esconder que era lésbica. Quem tinha vergonha eram as outras meninas do colégio, pra quem ela levava flores, chocolates e cartões. Não para todas, só por quem ela se interessava. Às vezes eu me perguntava como ela sabia que as meninas que ela enviava flores eram lésbicas. E ela sempre sabia, e sempre conseguia. Pelo jeito ela continuava lésbica, continuava saindo para baladas e levando flores. Mas desta vez o Lucas estava com ela. Conhecia o Lucas a 4 anos e ele não tinha me contado que era gay. Mas naquele momento, a chateação era a última coisa que passava na minha cabeça. Eu estava explodindo de alegria.

Desde quando somos bem novos, as piadinhas e brincadeiras nos fazem acreditar que ser gay é errado, que todos os gays são tarados, e que estamos condenados a ser infelizes pelo resto da vida. Aos 12 anos, os hormônios já nos apontam o caminho a seguir na vida. Se os hormônios nos mandam gostar de meninos, a primeira coisa à cabeça são as piadas. Neste momento começa a única coisa que todo gay tem em comum: "a fase de aceitação". Ela pode durar um dia, uma semana, alguns anos, uma vida inteira, e em alguns casos (na verdade, vários casos), ela pode nunca terminar.

A minha fase durou alguns anos. No momento que a Carla disse aquelas palavras, eu ainda estava um pouco na defensiva, mas saber que o Lucas, meu grande amigo, era gay, namorava, terminava, saía pra balada e era feliz assim, a minha "fase de aceitação" chegou completamente ao fim. O próximo passo era arranjar um jeito de contar para ele que eu também era gay.

Mas voltando à realidade...

Tanto tempo juntos, tantas experiências vividas, eu não queria continuar sofrendo por não saber o que estava acontecendo na cabeça dos meus amigos. Na mesma quarta feira, eu enviei uma mensagem. Tão direta quanto a mensagem do Cacá:

"Jantar amanhã no shopping?"

5 minutos depois vem uma mensagem do Cacá dizendo somente "ok". Meia hora depois, Lucas envia: "Claro, tem muita coisa que eu preciso te contar"
É, acho que as coisas estão voltando ao normal.

Quinta feira, quando chego ao shopping, e encontro Cacá e Lucas sentados em uma mesa, rindo e conversando, tenho a certeza que as coisas realmente voltaram ao normal.
- E aí, travesti? Demorou demais, o que aconteceu? - Disse o Lucas
- Fala baixo, Lucas. Tá cheio de gente aqui - reclamou o Cacá
- Pois é, foi mal. Não deu pra chegar mais cedo...
E depois vieram piadas, e depois veio um sanduíche, até que o Lucas disse:
- Jonas, vamos ao banheiro comigo?
- Ahn... eh... Tá, ok!
Não adiantava falar que eu não estava com vontade, senão eu iria ter que levantar 10 minutos depois, porque eu estava com muita vontade. Nunca tive problemas em usar o mictório, mas desta vez eu preferi usar o reservado. Nenhuma palavra dita durante toda a ida ao banheiro. Silêncio total, até voltarmos à mesa e ele diz:
- Mas então, Jonas. Preciso te contar. Sabe o Diego?
- Claro, o que aconteceu?

Neste momento, alguém passa e esbarra na bandeja do Cacá, que quase vai ao chão. Loiro, com cara de estrangeiro, bonito, um pouco mais velho. Pede desculpa e senta duas mesas depois da gente. É estranho que, quando a gente começa a conhecer o mundo gay, tudo ao nosso redor parece ser gay.
- Cacá, foi de propósito. Tá dando pra ver daqui que ele tá de olho na gente.
- Eu sei que tá de olho, Lucas, mas não é pra mim. Ele tá de olho em você
- Ahn, não sei, continua olhando. Vamos ver no que dá

Sempre achei estranho este tipo de interação em lugares publicos. Nunca entendi muito bem como funciona. Como você dá em cima de alguém que você nem sabe se é gay? Bom, na mesa mais adiante estavam duas pessoas. O loiro estrangeiro e um amigo de cabelo grande, que de vez em quando jogava o cabelo de um lado para outro. Enquanto os dois cochichavam e davam risadas, Cacá e Lucas tentam adivinhar para quem o loiro está olhando, torcendo para que o outro não tenho que ficar com a bicha do cabelo grande.
- Jonas, nós dois vamos lá na mesa puxar conversa rapidinho, vc se importa?
- Aqui, assim no meio do pessoal? Ahn, claro que não me importo, Cacá, vai lá. Tô aqui esperando
- Relaxa, é só conversar. Daqui a pouco a gente volta

E fiquei sentado na mesa esperando. Já estou acostumado. Não é a primeira vez que isso acontece. Depois de 5 minutos de conversas e risos já tinha parado de prestar atenção nos 4 e comecei a prestar atenção nas pessoas ao meu redor. É só virar a cabeça e vejo André vindo em minha direção. André é da minha sala na faculdade, e faz parte do time da sala. André é o típico playboy popular. Todos na sala adoram ele e o seu grupo de amigos. Eu os chamo de "os héteros sem cérebro". Bom, pelo menos eu os chamo assim mentalmente. Como integrante do time de futebol, e no meio de uma sala de Engenharia, tenho que fingir que sou amigos deles e, acima de tudo, tenho que finjir que sou hétero. Nesse momento, tenho que finjir que não conheço o Lucas, o Cacá e as duas bichas escandalosas da outra mesa.

- E aí, Jonas? Veio passear aqui?
- Pois é. Bom, na verdade só vim com uns amigos comer alguma coisa
- E cadê eles?
- É, pois é. Eu não sei. Eles saíram... Acho que foram ao banheiro... Tenho quase certeza disso.
- Cara, eu não gosto muito deste shopping. Aquele outro lá perto da faculdade é bem melhor. Dá muito mais mulher bonita. Esse aqui só tem viado!
- Pois é! hehehehe...

Quando eu penso que a situação não podia piorar, chega o Cacá.
- Jonas, me empresta seu celular, rapidão. Eu preciso anotar o telefone dele.
Sem reação, olho pro André com cara de quem também não está entendendo, olho para o Cacá e entrego o telefone. André acompanha com o olhar o Cacá ir até a mesa, anotar o telefone e dar um abraço, primeiro na bicha de cabelo comprido e depois no loiro. André continua um tempo sem reação. Mas notando que Lucas e Cacá voltavam para a mesa, diz:
- Bom, cara. Tenho que ir. Tá tarde. Falow
Sai e vai embora. Por alguns segundos eu saio de mim, e quando retorno os meninos estão sentados na mesa.

- Cara, foi muito legal. Eles são super simpáticos, e... Jonas, que cara é essa? Tá tudo bem?

Não. Não tá nada bem...

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

O armário - Capítulo 3

Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas...

Lucas Brandão


Jonas já está olhando para mim a 5 minutos. Ele não sabe muito bem o que dizer. Mesmo sentindo o mesmo que ele, não posso fazer esta confissão. O Jonas me olha de vez em quando com um jeito de quem procura um conselho, uma frase feita. Gosto de parecer que sei mais sobre a vida do que ele, isso me ajuda a mostrá-lo coisas que ele já percebeu e estão na cara.

Naquele momento, não havia nada a dizer, eu estava falhando da minha posição de conselheiro. O que falar? Cacá bateu a porta e saiu sem dizer nada.
Mas eu sentia alguma responsabilidade pelo Jonas. Era mínima, mas afinal de contas, fui eu quem o coloquei neste mundo, e cabe a mim dar para ele qualquer explicação sobre este mundo. O nosso mundo. Então, cabia a mim falar primeiro.

- Ahn, ele deve estar estressado. Você sabe muito bem como é a família dele. Com uma mãe daquela, até eu estaria me sentindo assim de vez em quando. Vamos dar um tempo...
- Não! Você sabe que isso não tem nada a ver com a mãe dele - disse Jonas, como quem quisesse discontar parte da raiva de Cacá em mim.
- Não precisa ficar assim, ele surtou e só. Não vai apelar que nem ele.
- Não venha me dizer que o Cacá é mais um daqueles que apelam com qualquer tipo de brincadeirinha, porque nós dois sabemos que ele não é. Aqueles comentários já estavam indo longe demais e você não parou. Quer saber, a gente não vai mais sair hoje mesmo, né? Eu vou embora.

E como quem buscava demostrar a mesma raiva do outro que saiu a pouco, Jonas também saiu, educado demais para bater a porta.


São estes os amigos que escolhi. É hora de falar deles.


Minha história começou a uns 4 anos atrás. Começou no dia em que eu consegui encarar o espelho e dizer para mim mesmo. Sim, eu sou gay. E não foi fácil conseguir fazer isso. Assim como foi mais difícil encarar o espelho depois disso. Mas eu resolvi encarar o espelho, e 2 dias depois resolvi encarar o mundo. É engraçado a primeira impressão que uma boite passa pra gente, principalmente quando se está sozinho. O lugar todo parece igual, as pessoas são escuras, vermelhas, verdes, e te olham como se soubessem que é a primeira vez que você está alí. Você passa entre os grupos como se fosse mais um item do cardápio. E te desejam.

Me encontrei em um lugar onde tudo o que sempre foi reprimido estava diante dos meus olhos. E foi alí que passei a minha noite, e a noite da próxima semana, e durante todo o mês. Tudo era permitido, amigos vinham fácil, viravam namorados, iam embora num estalar de dedos, enquanto mais um amigo era "promovido". Tudo era fácil. O mundo era meu.

E de repente eu percebi que este mundo sempre esteve em baixo do meu nariz. Linguajares, códigos, olhares em lugares publicos. O centro da cidade era gay, o cinema era gay, o shopping, a internet, a televisão, eu me sentia encaixado, reinando num mundo de mentira.

A avalanche de possibilidades me mostrou quantos lugares diferentes eu poderia conhecer alguém para sair, beijar, transar. Mas foi na internet que eu conheci o Cacá.

Final de semana, pais viajando, casa vazia, cama dos pais vazia. Na esperança de encontrar alguém para preencher essa cama comigo, entro naquele bate papo. Menos de 10 minutos entra um menino com apelido de "curioso". De duas, uma. Ou o curioso não possuía as mesmas intenções que eu ou então ele não sabia da regra número um de uma sala de bate papo: o apelido. O apelido utilizado numa sala de bate papo deve dizer pelo menos um pouco de suas intenções naquele lugar. Pensei em várias possibilidades antes de entrar nesta sala: "cama_vazia_hoje", "garotosozinho", "vem.deitar.comigo", mas no medo de parecer fácil demais, entrei somente com um aviso que estou solteiro e procuro alguma coisa pra fazer.

Marcamos de encontrar na porta de um shopping no centro. Não sugeri cinema, bar, restaurante, nada que pudesse nos prender por muito tempo e desse tempo para ir para casa logo. O plano estava todo na minha cabeça. Sentariamos em uma mesa, conversaríamos por 15 minutos e iríamos lá pra cara para ter uma noite inteira de sexo. Os 15 minutos viraram 30, que viraram 1 hora, 2 horas, que virou um cinema, que virou uma amizade. E quando eu pensei que o mundo naquela boite era grande, a gente saiu pra conhecer a cidade toda. Era uma boite por semana, ou um bar novo, sempre um ficante novo, de vez em quando 2 ou 3.

E por um ano foi assim. Já tinha esquecido das velhas amizades, só queria este mundo. Foi quando um grande amigo me ligou e disse que precisava conversar comigo. Jonas sempre foi um cara admirável. Nossa amizade começou devagar, mas em 3 anos éramos inseparáveis. Foi quando as aulas acabaram e nos distanciamos. Coincidiu com a época que resolvi encarar o espelho e todo meu antigo mundo ficou pra trás.

- Que foi, Jonas?
- Eu preciso te contar uma coisa.
- Pode falar, e conta comigo para o que quiser.
- Bom, não sei como dizer, mas é algo que eu sempre senti, mas nunca falei pra ninguém. Eu não sei mesmo como te falar isso

Naquela hora eu sabia exatamente o que ele queria me falar, mas eu deixei ele tomar o seu tempo. Foi preciso 40 minutos para ele conseguir dizer as três palavras: "eu sou gay". Sim, eu poderia ter facilitado pra ele, mas ele precisava tirar este peso das costas e encarar essa realidade. Sim, ele é gay, nós somos gays, não há nada errado com isso, e há um mundo inteiro lá fora esperando a gente. Foi quando eu comecei a apresentar o mundo para ele, começando pelo Cacá.

Uma boite nova inaugurava aquela noite e fomos os três:
- Carlos! Carlos Portugal!
- Como?
- Ahn, deixa quieto, pode me chamar de Cacá!
-Aqui é sempre tão alto assim? Quase não estou te ouvindo.
-Então se acostume, a gente nem entrou na pista de dança ainda.
Fui buscar uma bebida e quando voltei eles já tinham ido à pista de dança. Cacá já começou a apresentar o mundo a Jonas. E no dia da inauguração da boite foi a inauguração de uma nova amizade. Após este dia, os 3 eram melhores amigos. Inseparáveis. Nenhuma briga

Até hoje...

15 minutos depois, Jonas estava de volta à minha porta
- Desculpa ter gritado com você, não vamos ter mais cansaços assim, já basta o Cacá.
- Não, tudo bem, eu exagerei mesmo. Vamos esquecer isso, fica aqui, vamos ver um filme.

Jonas passou pela porta da minha casa, entrou no meu quarto e eu tranquei a porta. Ele senta na cama e eu na poltrona. Coloquei uma música lenta para tocar. Coloquei minha mão na coxa dele e perguntei:
- E aí, que tipo de filme você quer ver?
Jonas parece assustado com isso.
- Ahn... na verdade é melhor eu ir mesmo. Tenho muito a fazer em casa...

E saiu. Vai embora e bate a porta com a mesma delicadeza de antes. O que mais estranho poderia acontecer nesse dia de hoje?

De repente o telefone toca. É o Diego

domingo, 15 de fevereiro de 2009

O armário - Capítulo 2

O que nos mantém em pé são os laços que nos sustentam. Alguns desses laços podem ser desfeitos e alguns devem ser desfeitos. Um passo, ou um laço em falso, é o suficiente para desatar muitos outros.

Carlos Portugal

Meu nome é Carlos Portugal, tenho 22 anos. Sei, eu também sempre achei estranho colocarem o sobrenome Portugal para alguém. Sobrenomes devem significar outras coisas. Na verdade, eu não sei muito bem o que sobrenomes devem significar, mas definitivamente, países não.
Herdei este sobrenome da minha mãe. E provavelmente, por ter sido Hitler na última reencarnação, eu herdei esta mãe.
Acordei domingo com ela gritando na minha cabeça.
- Levanta, menino, que já estamos almoçando.
- Ai, não precisa gritar, eu tô ouvindo. E não me chama de menino, a senhora sabe que eu não gosto.
- E você quer saber o que eu não gosto? Eu não gosto quando você troca o dia pela noite. Quando resolve fazer Deus sabe o quê noite afora e me deixa acordada te esperando.
- A senhora não precisa ficar me esperando, eu já disse isso. Eu estava com o pessoal.
- Acontece que eu nunca sei onde você está ou com quem você está.
- A senhora sempre sabe, mas nunca acredita. Eu te avisei ontem que era aniversário de uma amiga rica minha. Festão em um apartamento. Cobertura, você tinha que ver. Tinha até piscina. Tinha um pessoal caindo na piscina, mas eu não animei.
- Tá bom, você vai almoçar agora com a gente agora?
- Estou indo, só vou lavar o rosto.
Eu não sentia a menor fome. Na verdade, eu não aguentaria fazer nada naquele momento. Se existisse os 10 mandamentos da balada, o último com certeza seria: "Aguentarás a ressaca sem reclamar". Eu não estava nada bem, mas em hipótese alguma minha mãe poderia perceber isso. Ela não poderia perceber nada além de um recém chegado de uma festa comportada em um bairro chique da cidade.

Meu relacionamento com minha mãe pode ser descrito como estar passeando nos alpes suíços em um dia de sol e de repente ir parar na fronteira entre judeus e palestinos em Israel. Nos damos bem na maioria do tempo, mas um movimento em falso e estamos em guerra novamente. Às vezes ela simplesmente me trata como um qualquer, não sei porque. Ou talvez eu saiba.

Nestas horas eu preciso de uma válvula de escape. E agora é a hora de falar de minhas válvulas de escape: Lucas e Jonas.
Encontrei o Lucas no lugar mais improvável de se encontrar um grande amigo: na Internet. Tudo começou a 4 anos atrás. Eu tinha acabado de me mudar para cá e estava procurando amizades. Na verdade, eu procurava por um começo. Todos nós passamos por isso. Chega um momento em que você diz a si mesmo: é agora. Preciso me assumir gay, pelo menos para a comunidade gay. Você não está nem pensando em se assumir para outros grupos, e só a idéia de fazer isso já chega a parecer um absurdo. Naquele momento eu só queria uma compania pra me mostrar como funciona o mundo, pelo menos o mundo que eu não conseguia ver.

Pensei muito no que fazer e no que dizer antes de realmente entrar naquela sala de bate papo.
* solteiro18a diz: oi
* curioso diz: oi
* solteiro18a diz: e aí, como vc é?
* curioso diz: hum, como assim?
* solteiro18a diz: ahn, me diz como vc parece
* curioso diz: eh, fisicamente vc está perguntando
* solteiro18a diz: vc é novo por aqui, né?
* curioso diz: ih... tá tão na cara assim?
* solteiro18a diz: hehehe, mais ou menos. Quer me encontrar em algum lugar?
* curioso diz: han... tá bom
* solteiro18a diz: hoje, 7 horas na porta daquele shopping do centro tá bom pra vc?
* curioso diz: eh, se está bom pra você...
* solteiro18a diz: de lá a gente decide pra onde ir
* curioso diz: ahn, tudo bem
* solteiro18a diz: então é isso
* curioso diz: espera, como eu vou te reconhecer?
* solteiro18a diz: fácil, vou estar com uma bermuda azul
* curioso diz: ahn, tá
* solteiro18a diz: beijo, gato
* curioso diz: até mais


Minha primeira impressão não foi a melhor. Tudo foi mais simples do que eu pensava. Na verdade, foi simples demais. Um estranho, que poderia ser um vovô de 50 anos, me convidando para encontrá-lo, sem ao menos perguntar primeiro sobre como eu sou ou o que gosto de fazer. Passei o resto do dia pensando se era assim que as coisas funcionam. Se todos só pensam em encontrar qualquer um em um lugar qualquer para transar e depois nunca mais ver pela frente. Será que eu estava pronto a entrar num mundo onde os relacionamentos duravam menos tempo que os períodos que eu estava em paz com minha mãe, isto quer dizer, quase nada. Eu lembro também de como foi estranha a sensação de ter outro homem me chamando de gato. Eu pensava em muita coisa. Estava elétrico. Tentava simular maturidade e parar de pensar no assunto, mas quando o relógio ia aproximando 6 horas já estava quase impossível disfarçar o nervosismo.

Cheguei na porta do shopping e me deparei com um menino, mais ou menos da minha idade, usando bermuda azul. Por um segundo fiquei aliviado por não encontrar um velho qualquer me esperando. Não sei se foi porque eu mudava o olhar sempre que ele me encarava, ou se foi porque minha testa suava muito, mas ele logo me reconheceu e veio conversar comigo.
- Curioso?
- Ahn, oi!
- Eu sou o Lucas.
- Ahn... é... muito prazer - eu disse, suando cada vez mais
- E vc? Curioso é seu nome de verdade?
- Não, não... desculpa... Me chamo Carlos. Cacá. Todo mundo me chama de Cacá desde pequeno.
- Nervoso?
- Eu... é... não.
- Então não entendo porque você está todo suado e rodando esta pulseira o tempo todo.
- Não é uma pulseira, é uma fita.
- Do convento em Vila Velha?
- Todo mundo pensa que é do nosso senhor do Bonfim. Você é a primeira pessoa que diz o contrário.


E conversamos. Como conversamos. E não saímos dali para ir a lugar nenhum, como foi o combinado. Depois veio um fast food, depois veio um cinema e antes mesmo de nós pisarmos para fora do shopping, já estava firmada uma amizade.
Viramos companheiros. Saíamos para todo lugar. Ele também não conhecia muito como funcionava o nosso mundo, então fomos nos apresentando as coisas. Nos apresentamos pessoas, boates, bares. Durante um ano fomos só nós dois.

Até que um dia o Lucas disse:
- Tenho que te apresentar alguém
- Oba, é homem?
- É sim
- Anh, já me interessei. Me passa a ficha completa.
- É o Jonas. Já te falei dele algumas vezes. Nós estudamos juntos, mas só recentemente ele veio me falar que torce para nosso time.
- Bonito?
- Muito! Mas vai com calma que esta não é a melhor qualidade dele. Menino pra casar.


E pela segunda vez, eu levei uma bela rasteira da vida. Pela segunda vez eu fui conhecer alguém com as piores das intenções e fiz um amigo. Desta vez foi um golpe triplo. Naquela noite, percebemos que funcionamos melhor em trio. Inconsientemente formamos um clã. O meu grupo, a minha válvula de escape.



De volta à realidade crua de um almoço de domingo, enquanto eu tentava engolir algo e fingir não estar com a pior ressaca do mundo, meu telefone toca na mesa do almoço.

- Alô?
- Oi amiga! - Disse uma voz que só poderia ser do Lucas
- Hum, oi, tudo bem?
- Nossa, que seriedade é essa?
- Nada, nada - eu disse, completamente sem graça. Enquanto isso, minha mãe fingia olhar para a comida, mas completamente atenta à conversa
- Já sei, sua família está aí por perto.
- É, mais ou menos...
- Ahn, vou falar rápido então. Vem aqui pra casa mais tarde. O Jonas tá vindo também. Daqui a gente decide se vai fazer alguma coisa.
- Tudo bem, até depois.
- Beijo, tchau.
Enquanto meus irmãos discutiam alguma coisa sobre o almoço, minha mãe lançou um olhar como se tivesse acabado de chegar àquela mesa.
- Quem era no telefone?
- Um amigo meu, nada não. Este macarrão está um pouco sem sal, não acham?


Mais tarde naquele dia, estávamos os três reunidos novamente na casa do Lucas, repassando os acontecimentos da noite passada.
- Levei mesmo aquele cara para o banheiro - disse Lucas para o Jonas - pelo menos eu admito. E eu vi você com, no mínimo, dois caras ontem. E ainda tem coragem de ficar fazendo cara de santa.
- Foram dois mesmo, mas pelo menos eu lembro o nome dos dois. Como é que chama mesmo aquele cara que você levou para o banheiro?
- Não tenho a menor idéia
- Tá vendo? Vocês dois são assim. Aposto que o Cacá também não deve lembrar o nome do "tio" de ontem. - disse Jonas
Então Lucas virou-se para mim e disse:
- Ahn, isso tanto faz, não é princesa?

Aquelas palavras me acertaram como um raio.
- O que você disse, Lucas? - enquanto levantei da cadeira bruscamente
- Que isso! Que susto foi esse?
- Eu perguntei do que você me chamou?
- Calma, Cacá. - Jonas disse assustado - Ele não disse nada. Era você que estava gritando da janela do carro para todos que passavam, chamando de princesa, não se lembra?
- Eu não disse isso - senti um ódio crescendo. Não era ódio do Jonas, mas não havia outro lado para canalizar aquele sentimento - e mesmo se tivesse dito, não precisa ficar me culpando por tudo que eu disse.
- Calma, ninguém está te reencriminando, princesa.
O Lucas não havia entendido que aquela brincadeira tinha ido longe demais. Ninguém iria entender como aquela brincadeira pode me afetar tanto. Então, sem explicações e sem despedidas, saí dalí naquele instante.
O único jeito de fugir daquela situação, era literalmente fugir daquele lugar. Às vezes, transparecer falta de educação é melhor do que trasparecer coisas que não queremos...

O armário - Capítulo 1

4 amigos, 4 vidas, 1 história

Não se escolhe nascer branco, negro, com o pé chato ou alérgico à penicilina.
Na vida há escolhas que não são feitas por nós. Mas o que irá moldar nosso caráter e construir nosso futuro são as escolha que podemos fazer.

Jonas Araujo

Não sei porque continuamos a vir em boates. Durante toda a semana eles reclamam que odeiam este tipo de ambiente, enquanto espero ansiosamente o sábado. É sempre assim! Chegando aqui, nos divertimos, cada um arruma uma coisa pra fazer separadamente (inclusive eu), mas eu sempre acabo a noite sozinho.
Meu nome é Jonas Araujo, 21 anos. Comecei a frequentar estes ambientes a 3 anos atrás quando o Lucas me trouxe pela primeira vez. É verdade, preciso falar do Lucas primeiro. Claro que não conseguirei fazer isso sem falar do Carlos, o nosso Cacá.
Conheço a Lucas há 8 ou 9 anos. Estudávamos juntos e mantivemos uma amizade razoável no começo. Frequentávamos a mesma roda de amigos e isso foi suficiente para começarmos a conversar. Durante um ano nos suportamos. No próximo ano ficamos próximos. No outro, éramos melhores amigos, mas foi só no quarto ano de amizade quando terminamos a escola que eu percebi que não conseguia viver sem ele. Nos afastamos e percebi que ele estava seguindo outros caminhos. Caminhos que eu sempre soube que seguiria, mas nunca tive coragem de dar o primeiro passo.
Um ano. Este foi o tempo que demorou para eu me abrir com ele. Dizer que, além de grandes amigos, possuíamos alguns gostos parecidos. Foi aí que ele me levou para conhecer o mundo. E conhecer o Cacá.
Eu já havia pensado que seria difícil encontrar um outro grande amigo até conhecer o Cacá. Quando o Lucas começou a sair, ele logo conheceu o Cacá. Eles já me contaram uma vez como foi isto, mas não me lembro muito bem. Só o que me lembro é que quando conheci o Cacá, demorou uma semana para ficarmos inseparáveis. Os três. Saíamos sempre, e quando não era possível, recorríamos ao telefone.
Passou-se três anos até este momento. Eu, aqui, sozinho nesta boate, três horas da manhã, esperando Lucas decidir que já é hora de ir embora. Infelizmente, ele que decide. Ele tem o carro, ele sabe a hora de me buscar em casa e a hora de ir embora. Acho que vou até ele perguntar alguma coisa sobre algum drink, na esperança dele perguntar se eu já quero ir embora. Isso às vezes funciona, mas se ele estiver acompanhado esta noite, posso desistir.
Depois de um bom tempo procurando, só o que encontrei foi o Cacá bêbado em um canto, sendo cuidado por um homem que parece ser 10 anos mais velho que ele. Bonito sim, mas isso não disfarça o fato de ser velho. Não sei o que Cacá vê nestes tiozinhos. Mas eu sei o que eles vêem nele. O Cacá possui o melhor senso de humor do mundo. Estar do lado dele é se sentir feliz, alegre, jovem. Bom, talvez seja isso.
- Cacá, você viu o Lucas?
- Lá vem você querendo ir embora.
- Não é isso, só quero perguntar uma coisa pra ele.
Se tem uma pessoa que consegue ler minha mente, este é o Cacá. O que eu mais tenho medo é do que ele não diz sobre mim. Tenho a impressão que ele sabe tudo ao meu respeito, e tenho medo do que ele possa me falar. Enquanto isso, o "tio" continuava cuidando dele como se nada tivesse acontecido.
- Pára de reclamar, Jonas. Te vi a meia hora atrás atracado com um bonitão. Cadê ele?
- Ahn, cansei dele. Cabeça vazia, sabe? Quando disse sobre o meu trabalho, ele me perguntou o que eram leveduras.
- Tá, e o que é uma levedura?
- Pára com isso, cadê o Lucas?
- Sei lá, já procurou no banheiro?
Se tem uma coisa que não concordo com o Lucas é que ele simplesmente não importa com o que as pessoas pensam. Se o momento manda ele simplesmente levar alguém para o banheiro para simplesmente "resolver o assunto" agora, é o que ele faz. E, digamos, é o que ele faz com muita frequência.
- Lucas, você tá aí?
- Han, quem é?
- Sou eu, Jonas, abre aí
- Haaan, agora não dá, você pode esperar um pouco
- Quem é esse? - Disse uma segunda voz de dentro do banheiro
- É um amigo meu, espera um minuto.
- Pode deixar, Lucas. Continua aí, mas assim que der, me procura. Vou estar sentado naquela área perto da pista de dança.
E foi assim que eu terminei a noite. Meia hora depois apareceu o Lucas, dizendo que já estava cansado, e queria ir embora. Eu só fiz uma cara que dizia "ahn, já esta na hora de ir embora? Tudo bem, já que você quer assim". Resgatamos o Cacá (aparentemente mais bêbado que anteriormente), agradeçemos ao "tiozinho" e fomos embora.
- Jonas, fica de olho no Cacá, porque se ele vomitar no banco do meu carro, amanhã vocês dois vão ter que limpá-lo todo.
- Eu também? A culpa não é minha se ele bebe mais do que seu fígado consegue processar.
- Ahn, pelo menos segura a cabeça dele pra fora enquanto eu estiver dirigindo.
- Sabe quem me ligou hoje? O Diego.
- Diego? Que Diego?
- O Diego! Diego Magalhães.
- Olha, ele continua vivo? Pensei que tinha se trancado definitivamente em sua bolha social.
- Pára com isso, Lucas. Ele é legal.
- Sei, ele também me ligou um dia desses.
- Sério? O que ele queria?
- Não sei, não atendi. O que ele queria com você?
- Eu também não sei. E olha que eu atendi o telefone. Primeiramente me perguntou se eu tinha um livro pra emprestá-lo, depois começou a perguntar sobre o que eu estava fazendo da vida, perguntou sobre você e o Cacá.
- Ele está um pouco curioso demais, não?
- Eu também achei estranho. No final, ele me disse pra dar notícias e pra ligar pra ele se fôssemos sair algum dia desses.
- O Diego? Querendo sair com a gente?
- Eu sei. Às vezes ele só quis ser educado. Ou, sei lá, às vezes ele está se sentindo sozinho.
- Mas ele sabe que tipo de lugar a gente frequenta.
- Eu sei disso. É o que eu estou achando mais estranho. Você desconfia dele?
- Não sei, nunca pensei nele deste modo. Mas até que... não sei...
- O que a gente faz, liga pra ele já chamando de amigo e convida pra sair com a gente final de semana que vem?
- Olha, você eu não sei. Eu não vou fazer nada. Já basta ter que deixar o Cacá em casa neste estado. Você conhece a mãe dele. Para ela estar acordada esperando para ver com quem ele está chegando não custa nada...