Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas...
Lucas Brandão
Jonas já está olhando para mim a 5 minutos. Ele não sabe muito bem o que dizer. Mesmo sentindo o mesmo que ele, não posso fazer esta confissão. O Jonas me olha de vez em quando com um jeito de quem procura um conselho, uma frase feita. Gosto de parecer que sei mais sobre a vida do que ele, isso me ajuda a mostrá-lo coisas que ele já percebeu e estão na cara.
Naquele momento, não havia nada a dizer, eu estava falhando da minha posição de conselheiro. O que falar? Cacá bateu a porta e saiu sem dizer nada.
Mas eu sentia alguma responsabilidade pelo Jonas. Era mínima, mas afinal de contas, fui eu quem o coloquei neste mundo, e cabe a mim dar para ele qualquer explicação sobre este mundo. O nosso mundo. Então, cabia a mim falar primeiro.
- Ahn, ele deve estar estressado. Você sabe muito bem como é a família dele. Com uma mãe daquela, até eu estaria me sentindo assim de vez em quando. Vamos dar um tempo...
- Não! Você sabe que isso não tem nada a ver com a mãe dele - disse Jonas, como quem quisesse discontar parte da raiva de Cacá em mim.
- Não precisa ficar assim, ele surtou e só. Não vai apelar que nem ele.
- Não venha me dizer que o Cacá é mais um daqueles que apelam com qualquer tipo de brincadeirinha, porque nós dois sabemos que ele não é. Aqueles comentários já estavam indo longe demais e você não parou. Quer saber, a gente não vai mais sair hoje mesmo, né? Eu vou embora.
E como quem buscava demostrar a mesma raiva do outro que saiu a pouco, Jonas também saiu, educado demais para bater a porta.
São estes os amigos que escolhi. É hora de falar deles.
Minha história começou a uns 4 anos atrás. Começou no dia em que eu consegui encarar o espelho e dizer para mim mesmo. Sim, eu sou gay. E não foi fácil conseguir fazer isso. Assim como foi mais difícil encarar o espelho depois disso. Mas eu resolvi encarar o espelho, e 2 dias depois resolvi encarar o mundo. É engraçado a primeira impressão que uma boite passa pra gente, principalmente quando se está sozinho. O lugar todo parece igual, as pessoas são escuras, vermelhas, verdes, e te olham como se soubessem que é a primeira vez que você está alí. Você passa entre os grupos como se fosse mais um item do cardápio. E te desejam.
Me encontrei em um lugar onde tudo o que sempre foi reprimido estava diante dos meus olhos. E foi alí que passei a minha noite, e a noite da próxima semana, e durante todo o mês. Tudo era permitido, amigos vinham fácil, viravam namorados, iam embora num estalar de dedos, enquanto mais um amigo era "promovido". Tudo era fácil. O mundo era meu.
E de repente eu percebi que este mundo sempre esteve em baixo do meu nariz. Linguajares, códigos, olhares em lugares publicos. O centro da cidade era gay, o cinema era gay, o shopping, a internet, a televisão, eu me sentia encaixado, reinando num mundo de mentira.
A avalanche de possibilidades me mostrou quantos lugares diferentes eu poderia conhecer alguém para sair, beijar, transar. Mas foi na internet que eu conheci o Cacá.
Final de semana, pais viajando, casa vazia, cama dos pais vazia. Na esperança de encontrar alguém para preencher essa cama comigo, entro naquele bate papo. Menos de 10 minutos entra um menino com apelido de "curioso". De duas, uma. Ou o curioso não possuía as mesmas intenções que eu ou então ele não sabia da regra número um de uma sala de bate papo: o apelido. O apelido utilizado numa sala de bate papo deve dizer pelo menos um pouco de suas intenções naquele lugar. Pensei em várias possibilidades antes de entrar nesta sala: "cama_vazia_hoje", "garotosozinho", "vem.deitar.comigo", mas no medo de parecer fácil demais, entrei somente com um aviso que estou solteiro e procuro alguma coisa pra fazer.
Marcamos de encontrar na porta de um shopping no centro. Não sugeri cinema, bar, restaurante, nada que pudesse nos prender por muito tempo e desse tempo para ir para casa logo. O plano estava todo na minha cabeça. Sentariamos em uma mesa, conversaríamos por 15 minutos e iríamos lá pra cara para ter uma noite inteira de sexo. Os 15 minutos viraram 30, que viraram 1 hora, 2 horas, que virou um cinema, que virou uma amizade. E quando eu pensei que o mundo naquela boite era grande, a gente saiu pra conhecer a cidade toda. Era uma boite por semana, ou um bar novo, sempre um ficante novo, de vez em quando 2 ou 3.
E por um ano foi assim. Já tinha esquecido das velhas amizades, só queria este mundo. Foi quando um grande amigo me ligou e disse que precisava conversar comigo. Jonas sempre foi um cara admirável. Nossa amizade começou devagar, mas em 3 anos éramos inseparáveis. Foi quando as aulas acabaram e nos distanciamos. Coincidiu com a época que resolvi encarar o espelho e todo meu antigo mundo ficou pra trás.
- Que foi, Jonas?
- Eu preciso te contar uma coisa.
- Pode falar, e conta comigo para o que quiser.
- Bom, não sei como dizer, mas é algo que eu sempre senti, mas nunca falei pra ninguém. Eu não sei mesmo como te falar isso
Naquela hora eu sabia exatamente o que ele queria me falar, mas eu deixei ele tomar o seu tempo. Foi preciso 40 minutos para ele conseguir dizer as três palavras: "eu sou gay". Sim, eu poderia ter facilitado pra ele, mas ele precisava tirar este peso das costas e encarar essa realidade. Sim, ele é gay, nós somos gays, não há nada errado com isso, e há um mundo inteiro lá fora esperando a gente. Foi quando eu comecei a apresentar o mundo para ele, começando pelo Cacá.
Uma boite nova inaugurava aquela noite e fomos os três:
- Carlos! Carlos Portugal!
- Como?
- Ahn, deixa quieto, pode me chamar de Cacá!
-Aqui é sempre tão alto assim? Quase não estou te ouvindo.
-Então se acostume, a gente nem entrou na pista de dança ainda.
Fui buscar uma bebida e quando voltei eles já tinham ido à pista de dança. Cacá já começou a apresentar o mundo a Jonas. E no dia da inauguração da boite foi a inauguração de uma nova amizade. Após este dia, os 3 eram melhores amigos. Inseparáveis. Nenhuma briga
Até hoje...
15 minutos depois, Jonas estava de volta à minha porta
- Desculpa ter gritado com você, não vamos ter mais cansaços assim, já basta o Cacá.
- Não, tudo bem, eu exagerei mesmo. Vamos esquecer isso, fica aqui, vamos ver um filme.
Jonas passou pela porta da minha casa, entrou no meu quarto e eu tranquei a porta. Ele senta na cama e eu na poltrona. Coloquei uma música lenta para tocar. Coloquei minha mão na coxa dele e perguntei:
- E aí, que tipo de filme você quer ver?
Jonas parece assustado com isso.
- Ahn... na verdade é melhor eu ir mesmo. Tenho muito a fazer em casa...
E saiu. Vai embora e bate a porta com a mesma delicadeza de antes. O que mais estranho poderia acontecer nesse dia de hoje?
De repente o telefone toca. É o Diego
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
domingo, 15 de fevereiro de 2009
O armário - Capítulo 2
O que nos mantém em pé são os laços que nos sustentam. Alguns desses laços podem ser desfeitos e alguns devem ser desfeitos. Um passo, ou um laço em falso, é o suficiente para desatar muitos outros.
Carlos Portugal
Meu nome é Carlos Portugal, tenho 22 anos. Sei, eu também sempre achei estranho colocarem o sobrenome Portugal para alguém. Sobrenomes devem significar outras coisas. Na verdade, eu não sei muito bem o que sobrenomes devem significar, mas definitivamente, países não.
Herdei este sobrenome da minha mãe. E provavelmente, por ter sido Hitler na última reencarnação, eu herdei esta mãe.
Acordei domingo com ela gritando na minha cabeça.
- Levanta, menino, que já estamos almoçando.
- Ai, não precisa gritar, eu tô ouvindo. E não me chama de menino, a senhora sabe que eu não gosto.
- E você quer saber o que eu não gosto? Eu não gosto quando você troca o dia pela noite. Quando resolve fazer Deus sabe o quê noite afora e me deixa acordada te esperando.
- A senhora não precisa ficar me esperando, eu já disse isso. Eu estava com o pessoal.
- Acontece que eu nunca sei onde você está ou com quem você está.
- A senhora sempre sabe, mas nunca acredita. Eu te avisei ontem que era aniversário de uma amiga rica minha. Festão em um apartamento. Cobertura, você tinha que ver. Tinha até piscina. Tinha um pessoal caindo na piscina, mas eu não animei.
- Tá bom, você vai almoçar agora com a gente agora?
- Estou indo, só vou lavar o rosto.
Eu não sentia a menor fome. Na verdade, eu não aguentaria fazer nada naquele momento. Se existisse os 10 mandamentos da balada, o último com certeza seria: "Aguentarás a ressaca sem reclamar". Eu não estava nada bem, mas em hipótese alguma minha mãe poderia perceber isso. Ela não poderia perceber nada além de um recém chegado de uma festa comportada em um bairro chique da cidade.
Meu relacionamento com minha mãe pode ser descrito como estar passeando nos alpes suíços em um dia de sol e de repente ir parar na fronteira entre judeus e palestinos em Israel. Nos damos bem na maioria do tempo, mas um movimento em falso e estamos em guerra novamente. Às vezes ela simplesmente me trata como um qualquer, não sei porque. Ou talvez eu saiba.
Nestas horas eu preciso de uma válvula de escape. E agora é a hora de falar de minhas válvulas de escape: Lucas e Jonas.
Encontrei o Lucas no lugar mais improvável de se encontrar um grande amigo: na Internet. Tudo começou a 4 anos atrás. Eu tinha acabado de me mudar para cá e estava procurando amizades. Na verdade, eu procurava por um começo. Todos nós passamos por isso. Chega um momento em que você diz a si mesmo: é agora. Preciso me assumir gay, pelo menos para a comunidade gay. Você não está nem pensando em se assumir para outros grupos, e só a idéia de fazer isso já chega a parecer um absurdo. Naquele momento eu só queria uma compania pra me mostrar como funciona o mundo, pelo menos o mundo que eu não conseguia ver.
Pensei muito no que fazer e no que dizer antes de realmente entrar naquela sala de bate papo.
* solteiro18a diz: oi
* curioso diz: oi
* solteiro18a diz: e aí, como vc é?
* curioso diz: hum, como assim?
* solteiro18a diz: ahn, me diz como vc parece
* curioso diz: eh, fisicamente vc está perguntando
* solteiro18a diz: vc é novo por aqui, né?
* curioso diz: ih... tá tão na cara assim?
* solteiro18a diz: hehehe, mais ou menos. Quer me encontrar em algum lugar?
* curioso diz: han... tá bom
* solteiro18a diz: hoje, 7 horas na porta daquele shopping do centro tá bom pra vc?
* curioso diz: eh, se está bom pra você...
* solteiro18a diz: de lá a gente decide pra onde ir
* curioso diz: ahn, tudo bem
* solteiro18a diz: então é isso
* curioso diz: espera, como eu vou te reconhecer?
* solteiro18a diz: fácil, vou estar com uma bermuda azul
* curioso diz: ahn, tá
* solteiro18a diz: beijo, gato
* curioso diz: até mais
Minha primeira impressão não foi a melhor. Tudo foi mais simples do que eu pensava. Na verdade, foi simples demais. Um estranho, que poderia ser um vovô de 50 anos, me convidando para encontrá-lo, sem ao menos perguntar primeiro sobre como eu sou ou o que gosto de fazer. Passei o resto do dia pensando se era assim que as coisas funcionam. Se todos só pensam em encontrar qualquer um em um lugar qualquer para transar e depois nunca mais ver pela frente. Será que eu estava pronto a entrar num mundo onde os relacionamentos duravam menos tempo que os períodos que eu estava em paz com minha mãe, isto quer dizer, quase nada. Eu lembro também de como foi estranha a sensação de ter outro homem me chamando de gato. Eu pensava em muita coisa. Estava elétrico. Tentava simular maturidade e parar de pensar no assunto, mas quando o relógio ia aproximando 6 horas já estava quase impossível disfarçar o nervosismo.
Cheguei na porta do shopping e me deparei com um menino, mais ou menos da minha idade, usando bermuda azul. Por um segundo fiquei aliviado por não encontrar um velho qualquer me esperando. Não sei se foi porque eu mudava o olhar sempre que ele me encarava, ou se foi porque minha testa suava muito, mas ele logo me reconheceu e veio conversar comigo.
- Curioso?
- Ahn, oi!
- Eu sou o Lucas.
- Ahn... é... muito prazer - eu disse, suando cada vez mais
- E vc? Curioso é seu nome de verdade?
- Não, não... desculpa... Me chamo Carlos. Cacá. Todo mundo me chama de Cacá desde pequeno.
- Nervoso?
- Eu... é... não.
- Então não entendo porque você está todo suado e rodando esta pulseira o tempo todo.
- Não é uma pulseira, é uma fita.
- Do convento em Vila Velha?
- Todo mundo pensa que é do nosso senhor do Bonfim. Você é a primeira pessoa que diz o contrário.
E conversamos. Como conversamos. E não saímos dali para ir a lugar nenhum, como foi o combinado. Depois veio um fast food, depois veio um cinema e antes mesmo de nós pisarmos para fora do shopping, já estava firmada uma amizade.
Viramos companheiros. Saíamos para todo lugar. Ele também não conhecia muito como funcionava o nosso mundo, então fomos nos apresentando as coisas. Nos apresentamos pessoas, boates, bares. Durante um ano fomos só nós dois.
Até que um dia o Lucas disse:
- Tenho que te apresentar alguém
- Oba, é homem?
- É sim
- Anh, já me interessei. Me passa a ficha completa.
- É o Jonas. Já te falei dele algumas vezes. Nós estudamos juntos, mas só recentemente ele veio me falar que torce para nosso time.
- Bonito?
- Muito! Mas vai com calma que esta não é a melhor qualidade dele. Menino pra casar.
E pela segunda vez, eu levei uma bela rasteira da vida. Pela segunda vez eu fui conhecer alguém com as piores das intenções e fiz um amigo. Desta vez foi um golpe triplo. Naquela noite, percebemos que funcionamos melhor em trio. Inconsientemente formamos um clã. O meu grupo, a minha válvula de escape.
De volta à realidade crua de um almoço de domingo, enquanto eu tentava engolir algo e fingir não estar com a pior ressaca do mundo, meu telefone toca na mesa do almoço.
- Alô?
- Oi amiga! - Disse uma voz que só poderia ser do Lucas
- Hum, oi, tudo bem?
- Nossa, que seriedade é essa?
- Nada, nada - eu disse, completamente sem graça. Enquanto isso, minha mãe fingia olhar para a comida, mas completamente atenta à conversa
- Já sei, sua família está aí por perto.
- É, mais ou menos...
- Ahn, vou falar rápido então. Vem aqui pra casa mais tarde. O Jonas tá vindo também. Daqui a gente decide se vai fazer alguma coisa.
- Tudo bem, até depois.
- Beijo, tchau.
Enquanto meus irmãos discutiam alguma coisa sobre o almoço, minha mãe lançou um olhar como se tivesse acabado de chegar àquela mesa.
- Quem era no telefone?
- Um amigo meu, nada não. Este macarrão está um pouco sem sal, não acham?
Mais tarde naquele dia, estávamos os três reunidos novamente na casa do Lucas, repassando os acontecimentos da noite passada.
- Levei mesmo aquele cara para o banheiro - disse Lucas para o Jonas - pelo menos eu admito. E eu vi você com, no mínimo, dois caras ontem. E ainda tem coragem de ficar fazendo cara de santa.
- Foram dois mesmo, mas pelo menos eu lembro o nome dos dois. Como é que chama mesmo aquele cara que você levou para o banheiro?
- Não tenho a menor idéia
- Tá vendo? Vocês dois são assim. Aposto que o Cacá também não deve lembrar o nome do "tio" de ontem. - disse Jonas
Então Lucas virou-se para mim e disse:
- Ahn, isso tanto faz, não é princesa?
Aquelas palavras me acertaram como um raio.
- O que você disse, Lucas? - enquanto levantei da cadeira bruscamente
- Que isso! Que susto foi esse?
- Eu perguntei do que você me chamou?
- Calma, Cacá. - Jonas disse assustado - Ele não disse nada. Era você que estava gritando da janela do carro para todos que passavam, chamando de princesa, não se lembra?
- Eu não disse isso - senti um ódio crescendo. Não era ódio do Jonas, mas não havia outro lado para canalizar aquele sentimento - e mesmo se tivesse dito, não precisa ficar me culpando por tudo que eu disse.
- Calma, ninguém está te reencriminando, princesa.
O Lucas não havia entendido que aquela brincadeira tinha ido longe demais. Ninguém iria entender como aquela brincadeira pode me afetar tanto. Então, sem explicações e sem despedidas, saí dalí naquele instante.
O único jeito de fugir daquela situação, era literalmente fugir daquele lugar. Às vezes, transparecer falta de educação é melhor do que trasparecer coisas que não queremos...
Carlos Portugal
Meu nome é Carlos Portugal, tenho 22 anos. Sei, eu também sempre achei estranho colocarem o sobrenome Portugal para alguém. Sobrenomes devem significar outras coisas. Na verdade, eu não sei muito bem o que sobrenomes devem significar, mas definitivamente, países não.
Herdei este sobrenome da minha mãe. E provavelmente, por ter sido Hitler na última reencarnação, eu herdei esta mãe.
Acordei domingo com ela gritando na minha cabeça.
- Levanta, menino, que já estamos almoçando.
- Ai, não precisa gritar, eu tô ouvindo. E não me chama de menino, a senhora sabe que eu não gosto.
- E você quer saber o que eu não gosto? Eu não gosto quando você troca o dia pela noite. Quando resolve fazer Deus sabe o quê noite afora e me deixa acordada te esperando.
- A senhora não precisa ficar me esperando, eu já disse isso. Eu estava com o pessoal.
- Acontece que eu nunca sei onde você está ou com quem você está.
- A senhora sempre sabe, mas nunca acredita. Eu te avisei ontem que era aniversário de uma amiga rica minha. Festão em um apartamento. Cobertura, você tinha que ver. Tinha até piscina. Tinha um pessoal caindo na piscina, mas eu não animei.
- Tá bom, você vai almoçar agora com a gente agora?
- Estou indo, só vou lavar o rosto.
Eu não sentia a menor fome. Na verdade, eu não aguentaria fazer nada naquele momento. Se existisse os 10 mandamentos da balada, o último com certeza seria: "Aguentarás a ressaca sem reclamar". Eu não estava nada bem, mas em hipótese alguma minha mãe poderia perceber isso. Ela não poderia perceber nada além de um recém chegado de uma festa comportada em um bairro chique da cidade.
Meu relacionamento com minha mãe pode ser descrito como estar passeando nos alpes suíços em um dia de sol e de repente ir parar na fronteira entre judeus e palestinos em Israel. Nos damos bem na maioria do tempo, mas um movimento em falso e estamos em guerra novamente. Às vezes ela simplesmente me trata como um qualquer, não sei porque. Ou talvez eu saiba.
Nestas horas eu preciso de uma válvula de escape. E agora é a hora de falar de minhas válvulas de escape: Lucas e Jonas.
Encontrei o Lucas no lugar mais improvável de se encontrar um grande amigo: na Internet. Tudo começou a 4 anos atrás. Eu tinha acabado de me mudar para cá e estava procurando amizades. Na verdade, eu procurava por um começo. Todos nós passamos por isso. Chega um momento em que você diz a si mesmo: é agora. Preciso me assumir gay, pelo menos para a comunidade gay. Você não está nem pensando em se assumir para outros grupos, e só a idéia de fazer isso já chega a parecer um absurdo. Naquele momento eu só queria uma compania pra me mostrar como funciona o mundo, pelo menos o mundo que eu não conseguia ver.
Pensei muito no que fazer e no que dizer antes de realmente entrar naquela sala de bate papo.
* solteiro18a diz: oi
* curioso diz: oi
* solteiro18a diz: e aí, como vc é?
* curioso diz: hum, como assim?
* solteiro18a diz: ahn, me diz como vc parece
* curioso diz: eh, fisicamente vc está perguntando
* solteiro18a diz: vc é novo por aqui, né?
* curioso diz: ih... tá tão na cara assim?
* solteiro18a diz: hehehe, mais ou menos. Quer me encontrar em algum lugar?
* curioso diz: han... tá bom
* solteiro18a diz: hoje, 7 horas na porta daquele shopping do centro tá bom pra vc?
* curioso diz: eh, se está bom pra você...
* solteiro18a diz: de lá a gente decide pra onde ir
* curioso diz: ahn, tudo bem
* solteiro18a diz: então é isso
* curioso diz: espera, como eu vou te reconhecer?
* solteiro18a diz: fácil, vou estar com uma bermuda azul
* curioso diz: ahn, tá
* solteiro18a diz: beijo, gato
* curioso diz: até mais
Minha primeira impressão não foi a melhor. Tudo foi mais simples do que eu pensava. Na verdade, foi simples demais. Um estranho, que poderia ser um vovô de 50 anos, me convidando para encontrá-lo, sem ao menos perguntar primeiro sobre como eu sou ou o que gosto de fazer. Passei o resto do dia pensando se era assim que as coisas funcionam. Se todos só pensam em encontrar qualquer um em um lugar qualquer para transar e depois nunca mais ver pela frente. Será que eu estava pronto a entrar num mundo onde os relacionamentos duravam menos tempo que os períodos que eu estava em paz com minha mãe, isto quer dizer, quase nada. Eu lembro também de como foi estranha a sensação de ter outro homem me chamando de gato. Eu pensava em muita coisa. Estava elétrico. Tentava simular maturidade e parar de pensar no assunto, mas quando o relógio ia aproximando 6 horas já estava quase impossível disfarçar o nervosismo.
Cheguei na porta do shopping e me deparei com um menino, mais ou menos da minha idade, usando bermuda azul. Por um segundo fiquei aliviado por não encontrar um velho qualquer me esperando. Não sei se foi porque eu mudava o olhar sempre que ele me encarava, ou se foi porque minha testa suava muito, mas ele logo me reconheceu e veio conversar comigo.
- Curioso?
- Ahn, oi!
- Eu sou o Lucas.
- Ahn... é... muito prazer - eu disse, suando cada vez mais
- E vc? Curioso é seu nome de verdade?
- Não, não... desculpa... Me chamo Carlos. Cacá. Todo mundo me chama de Cacá desde pequeno.
- Nervoso?
- Eu... é... não.
- Então não entendo porque você está todo suado e rodando esta pulseira o tempo todo.
- Não é uma pulseira, é uma fita.
- Do convento em Vila Velha?
- Todo mundo pensa que é do nosso senhor do Bonfim. Você é a primeira pessoa que diz o contrário.
E conversamos. Como conversamos. E não saímos dali para ir a lugar nenhum, como foi o combinado. Depois veio um fast food, depois veio um cinema e antes mesmo de nós pisarmos para fora do shopping, já estava firmada uma amizade.
Viramos companheiros. Saíamos para todo lugar. Ele também não conhecia muito como funcionava o nosso mundo, então fomos nos apresentando as coisas. Nos apresentamos pessoas, boates, bares. Durante um ano fomos só nós dois.
Até que um dia o Lucas disse:
- Tenho que te apresentar alguém
- Oba, é homem?
- É sim
- Anh, já me interessei. Me passa a ficha completa.
- É o Jonas. Já te falei dele algumas vezes. Nós estudamos juntos, mas só recentemente ele veio me falar que torce para nosso time.
- Bonito?
- Muito! Mas vai com calma que esta não é a melhor qualidade dele. Menino pra casar.
E pela segunda vez, eu levei uma bela rasteira da vida. Pela segunda vez eu fui conhecer alguém com as piores das intenções e fiz um amigo. Desta vez foi um golpe triplo. Naquela noite, percebemos que funcionamos melhor em trio. Inconsientemente formamos um clã. O meu grupo, a minha válvula de escape.
De volta à realidade crua de um almoço de domingo, enquanto eu tentava engolir algo e fingir não estar com a pior ressaca do mundo, meu telefone toca na mesa do almoço.
- Alô?
- Oi amiga! - Disse uma voz que só poderia ser do Lucas
- Hum, oi, tudo bem?
- Nossa, que seriedade é essa?
- Nada, nada - eu disse, completamente sem graça. Enquanto isso, minha mãe fingia olhar para a comida, mas completamente atenta à conversa
- Já sei, sua família está aí por perto.
- É, mais ou menos...
- Ahn, vou falar rápido então. Vem aqui pra casa mais tarde. O Jonas tá vindo também. Daqui a gente decide se vai fazer alguma coisa.
- Tudo bem, até depois.
- Beijo, tchau.
Enquanto meus irmãos discutiam alguma coisa sobre o almoço, minha mãe lançou um olhar como se tivesse acabado de chegar àquela mesa.
- Quem era no telefone?
- Um amigo meu, nada não. Este macarrão está um pouco sem sal, não acham?
Mais tarde naquele dia, estávamos os três reunidos novamente na casa do Lucas, repassando os acontecimentos da noite passada.
- Levei mesmo aquele cara para o banheiro - disse Lucas para o Jonas - pelo menos eu admito. E eu vi você com, no mínimo, dois caras ontem. E ainda tem coragem de ficar fazendo cara de santa.
- Foram dois mesmo, mas pelo menos eu lembro o nome dos dois. Como é que chama mesmo aquele cara que você levou para o banheiro?
- Não tenho a menor idéia
- Tá vendo? Vocês dois são assim. Aposto que o Cacá também não deve lembrar o nome do "tio" de ontem. - disse Jonas
Então Lucas virou-se para mim e disse:
- Ahn, isso tanto faz, não é princesa?
Aquelas palavras me acertaram como um raio.
- O que você disse, Lucas? - enquanto levantei da cadeira bruscamente
- Que isso! Que susto foi esse?
- Eu perguntei do que você me chamou?
- Calma, Cacá. - Jonas disse assustado - Ele não disse nada. Era você que estava gritando da janela do carro para todos que passavam, chamando de princesa, não se lembra?
- Eu não disse isso - senti um ódio crescendo. Não era ódio do Jonas, mas não havia outro lado para canalizar aquele sentimento - e mesmo se tivesse dito, não precisa ficar me culpando por tudo que eu disse.
- Calma, ninguém está te reencriminando, princesa.
O Lucas não havia entendido que aquela brincadeira tinha ido longe demais. Ninguém iria entender como aquela brincadeira pode me afetar tanto. Então, sem explicações e sem despedidas, saí dalí naquele instante.
O único jeito de fugir daquela situação, era literalmente fugir daquele lugar. Às vezes, transparecer falta de educação é melhor do que trasparecer coisas que não queremos...
O armário - Capítulo 1
4 amigos, 4 vidas, 1 história
Não se escolhe nascer branco, negro, com o pé chato ou alérgico à penicilina.
Na vida há escolhas que não são feitas por nós. Mas o que irá moldar nosso caráter e construir nosso futuro são as escolha que podemos fazer.
Jonas Araujo
Não sei porque continuamos a vir em boates. Durante toda a semana eles reclamam que odeiam este tipo de ambiente, enquanto espero ansiosamente o sábado. É sempre assim! Chegando aqui, nos divertimos, cada um arruma uma coisa pra fazer separadamente (inclusive eu), mas eu sempre acabo a noite sozinho.
Meu nome é Jonas Araujo, 21 anos. Comecei a frequentar estes ambientes a 3 anos atrás quando o Lucas me trouxe pela primeira vez. É verdade, preciso falar do Lucas primeiro. Claro que não conseguirei fazer isso sem falar do Carlos, o nosso Cacá.
Conheço a Lucas há 8 ou 9 anos. Estudávamos juntos e mantivemos uma amizade razoável no começo. Frequentávamos a mesma roda de amigos e isso foi suficiente para começarmos a conversar. Durante um ano nos suportamos. No próximo ano ficamos próximos. No outro, éramos melhores amigos, mas foi só no quarto ano de amizade quando terminamos a escola que eu percebi que não conseguia viver sem ele. Nos afastamos e percebi que ele estava seguindo outros caminhos. Caminhos que eu sempre soube que seguiria, mas nunca tive coragem de dar o primeiro passo.
Um ano. Este foi o tempo que demorou para eu me abrir com ele. Dizer que, além de grandes amigos, possuíamos alguns gostos parecidos. Foi aí que ele me levou para conhecer o mundo. E conhecer o Cacá.
Eu já havia pensado que seria difícil encontrar um outro grande amigo até conhecer o Cacá. Quando o Lucas começou a sair, ele logo conheceu o Cacá. Eles já me contaram uma vez como foi isto, mas não me lembro muito bem. Só o que me lembro é que quando conheci o Cacá, demorou uma semana para ficarmos inseparáveis. Os três. Saíamos sempre, e quando não era possível, recorríamos ao telefone.
Passou-se três anos até este momento. Eu, aqui, sozinho nesta boate, três horas da manhã, esperando Lucas decidir que já é hora de ir embora. Infelizmente, ele que decide. Ele tem o carro, ele sabe a hora de me buscar em casa e a hora de ir embora. Acho que vou até ele perguntar alguma coisa sobre algum drink, na esperança dele perguntar se eu já quero ir embora. Isso às vezes funciona, mas se ele estiver acompanhado esta noite, posso desistir.
Depois de um bom tempo procurando, só o que encontrei foi o Cacá bêbado em um canto, sendo cuidado por um homem que parece ser 10 anos mais velho que ele. Bonito sim, mas isso não disfarça o fato de ser velho. Não sei o que Cacá vê nestes tiozinhos. Mas eu sei o que eles vêem nele. O Cacá possui o melhor senso de humor do mundo. Estar do lado dele é se sentir feliz, alegre, jovem. Bom, talvez seja isso.
- Cacá, você viu o Lucas?
- Lá vem você querendo ir embora.
- Não é isso, só quero perguntar uma coisa pra ele.
Se tem uma pessoa que consegue ler minha mente, este é o Cacá. O que eu mais tenho medo é do que ele não diz sobre mim. Tenho a impressão que ele sabe tudo ao meu respeito, e tenho medo do que ele possa me falar. Enquanto isso, o "tio" continuava cuidando dele como se nada tivesse acontecido.
- Pára de reclamar, Jonas. Te vi a meia hora atrás atracado com um bonitão. Cadê ele?
- Ahn, cansei dele. Cabeça vazia, sabe? Quando disse sobre o meu trabalho, ele me perguntou o que eram leveduras.
- Tá, e o que é uma levedura?
- Pára com isso, cadê o Lucas?
- Sei lá, já procurou no banheiro?
Se tem uma coisa que não concordo com o Lucas é que ele simplesmente não importa com o que as pessoas pensam. Se o momento manda ele simplesmente levar alguém para o banheiro para simplesmente "resolver o assunto" agora, é o que ele faz. E, digamos, é o que ele faz com muita frequência.
- Lucas, você tá aí?
- Han, quem é?
- Sou eu, Jonas, abre aí
- Haaan, agora não dá, você pode esperar um pouco
- Quem é esse? - Disse uma segunda voz de dentro do banheiro
- É um amigo meu, espera um minuto.
- Pode deixar, Lucas. Continua aí, mas assim que der, me procura. Vou estar sentado naquela área perto da pista de dança.
E foi assim que eu terminei a noite. Meia hora depois apareceu o Lucas, dizendo que já estava cansado, e queria ir embora. Eu só fiz uma cara que dizia "ahn, já esta na hora de ir embora? Tudo bem, já que você quer assim". Resgatamos o Cacá (aparentemente mais bêbado que anteriormente), agradeçemos ao "tiozinho" e fomos embora.
- Jonas, fica de olho no Cacá, porque se ele vomitar no banco do meu carro, amanhã vocês dois vão ter que limpá-lo todo.
- Eu também? A culpa não é minha se ele bebe mais do que seu fígado consegue processar.
- Ahn, pelo menos segura a cabeça dele pra fora enquanto eu estiver dirigindo.
- Sabe quem me ligou hoje? O Diego.
- Diego? Que Diego?
- O Diego! Diego Magalhães.
- Olha, ele continua vivo? Pensei que tinha se trancado definitivamente em sua bolha social.
- Pára com isso, Lucas. Ele é legal.
- Sei, ele também me ligou um dia desses.
- Sério? O que ele queria?
- Não sei, não atendi. O que ele queria com você?
- Eu também não sei. E olha que eu atendi o telefone. Primeiramente me perguntou se eu tinha um livro pra emprestá-lo, depois começou a perguntar sobre o que eu estava fazendo da vida, perguntou sobre você e o Cacá.
- Ele está um pouco curioso demais, não?
- Eu também achei estranho. No final, ele me disse pra dar notícias e pra ligar pra ele se fôssemos sair algum dia desses.
- O Diego? Querendo sair com a gente?
- Eu sei. Às vezes ele só quis ser educado. Ou, sei lá, às vezes ele está se sentindo sozinho.
- Mas ele sabe que tipo de lugar a gente frequenta.
- Eu sei disso. É o que eu estou achando mais estranho. Você desconfia dele?
- Não sei, nunca pensei nele deste modo. Mas até que... não sei...
- O que a gente faz, liga pra ele já chamando de amigo e convida pra sair com a gente final de semana que vem?
- Olha, você eu não sei. Eu não vou fazer nada. Já basta ter que deixar o Cacá em casa neste estado. Você conhece a mãe dele. Para ela estar acordada esperando para ver com quem ele está chegando não custa nada...
Não se escolhe nascer branco, negro, com o pé chato ou alérgico à penicilina.
Na vida há escolhas que não são feitas por nós. Mas o que irá moldar nosso caráter e construir nosso futuro são as escolha que podemos fazer.
Jonas Araujo
Não sei porque continuamos a vir em boates. Durante toda a semana eles reclamam que odeiam este tipo de ambiente, enquanto espero ansiosamente o sábado. É sempre assim! Chegando aqui, nos divertimos, cada um arruma uma coisa pra fazer separadamente (inclusive eu), mas eu sempre acabo a noite sozinho.
Meu nome é Jonas Araujo, 21 anos. Comecei a frequentar estes ambientes a 3 anos atrás quando o Lucas me trouxe pela primeira vez. É verdade, preciso falar do Lucas primeiro. Claro que não conseguirei fazer isso sem falar do Carlos, o nosso Cacá.
Conheço a Lucas há 8 ou 9 anos. Estudávamos juntos e mantivemos uma amizade razoável no começo. Frequentávamos a mesma roda de amigos e isso foi suficiente para começarmos a conversar. Durante um ano nos suportamos. No próximo ano ficamos próximos. No outro, éramos melhores amigos, mas foi só no quarto ano de amizade quando terminamos a escola que eu percebi que não conseguia viver sem ele. Nos afastamos e percebi que ele estava seguindo outros caminhos. Caminhos que eu sempre soube que seguiria, mas nunca tive coragem de dar o primeiro passo.
Um ano. Este foi o tempo que demorou para eu me abrir com ele. Dizer que, além de grandes amigos, possuíamos alguns gostos parecidos. Foi aí que ele me levou para conhecer o mundo. E conhecer o Cacá.
Eu já havia pensado que seria difícil encontrar um outro grande amigo até conhecer o Cacá. Quando o Lucas começou a sair, ele logo conheceu o Cacá. Eles já me contaram uma vez como foi isto, mas não me lembro muito bem. Só o que me lembro é que quando conheci o Cacá, demorou uma semana para ficarmos inseparáveis. Os três. Saíamos sempre, e quando não era possível, recorríamos ao telefone.
Passou-se três anos até este momento. Eu, aqui, sozinho nesta boate, três horas da manhã, esperando Lucas decidir que já é hora de ir embora. Infelizmente, ele que decide. Ele tem o carro, ele sabe a hora de me buscar em casa e a hora de ir embora. Acho que vou até ele perguntar alguma coisa sobre algum drink, na esperança dele perguntar se eu já quero ir embora. Isso às vezes funciona, mas se ele estiver acompanhado esta noite, posso desistir.
Depois de um bom tempo procurando, só o que encontrei foi o Cacá bêbado em um canto, sendo cuidado por um homem que parece ser 10 anos mais velho que ele. Bonito sim, mas isso não disfarça o fato de ser velho. Não sei o que Cacá vê nestes tiozinhos. Mas eu sei o que eles vêem nele. O Cacá possui o melhor senso de humor do mundo. Estar do lado dele é se sentir feliz, alegre, jovem. Bom, talvez seja isso.
- Cacá, você viu o Lucas?
- Lá vem você querendo ir embora.
- Não é isso, só quero perguntar uma coisa pra ele.
Se tem uma pessoa que consegue ler minha mente, este é o Cacá. O que eu mais tenho medo é do que ele não diz sobre mim. Tenho a impressão que ele sabe tudo ao meu respeito, e tenho medo do que ele possa me falar. Enquanto isso, o "tio" continuava cuidando dele como se nada tivesse acontecido.
- Pára de reclamar, Jonas. Te vi a meia hora atrás atracado com um bonitão. Cadê ele?
- Ahn, cansei dele. Cabeça vazia, sabe? Quando disse sobre o meu trabalho, ele me perguntou o que eram leveduras.
- Tá, e o que é uma levedura?
- Pára com isso, cadê o Lucas?
- Sei lá, já procurou no banheiro?
Se tem uma coisa que não concordo com o Lucas é que ele simplesmente não importa com o que as pessoas pensam. Se o momento manda ele simplesmente levar alguém para o banheiro para simplesmente "resolver o assunto" agora, é o que ele faz. E, digamos, é o que ele faz com muita frequência.
- Lucas, você tá aí?
- Han, quem é?
- Sou eu, Jonas, abre aí
- Haaan, agora não dá, você pode esperar um pouco
- Quem é esse? - Disse uma segunda voz de dentro do banheiro
- É um amigo meu, espera um minuto.
- Pode deixar, Lucas. Continua aí, mas assim que der, me procura. Vou estar sentado naquela área perto da pista de dança.
E foi assim que eu terminei a noite. Meia hora depois apareceu o Lucas, dizendo que já estava cansado, e queria ir embora. Eu só fiz uma cara que dizia "ahn, já esta na hora de ir embora? Tudo bem, já que você quer assim". Resgatamos o Cacá (aparentemente mais bêbado que anteriormente), agradeçemos ao "tiozinho" e fomos embora.
- Jonas, fica de olho no Cacá, porque se ele vomitar no banco do meu carro, amanhã vocês dois vão ter que limpá-lo todo.
- Eu também? A culpa não é minha se ele bebe mais do que seu fígado consegue processar.
- Ahn, pelo menos segura a cabeça dele pra fora enquanto eu estiver dirigindo.
- Sabe quem me ligou hoje? O Diego.
- Diego? Que Diego?
- O Diego! Diego Magalhães.
- Olha, ele continua vivo? Pensei que tinha se trancado definitivamente em sua bolha social.
- Pára com isso, Lucas. Ele é legal.
- Sei, ele também me ligou um dia desses.
- Sério? O que ele queria?
- Não sei, não atendi. O que ele queria com você?
- Eu também não sei. E olha que eu atendi o telefone. Primeiramente me perguntou se eu tinha um livro pra emprestá-lo, depois começou a perguntar sobre o que eu estava fazendo da vida, perguntou sobre você e o Cacá.
- Ele está um pouco curioso demais, não?
- Eu também achei estranho. No final, ele me disse pra dar notícias e pra ligar pra ele se fôssemos sair algum dia desses.
- O Diego? Querendo sair com a gente?
- Eu sei. Às vezes ele só quis ser educado. Ou, sei lá, às vezes ele está se sentindo sozinho.
- Mas ele sabe que tipo de lugar a gente frequenta.
- Eu sei disso. É o que eu estou achando mais estranho. Você desconfia dele?
- Não sei, nunca pensei nele deste modo. Mas até que... não sei...
- O que a gente faz, liga pra ele já chamando de amigo e convida pra sair com a gente final de semana que vem?
- Olha, você eu não sei. Eu não vou fazer nada. Já basta ter que deixar o Cacá em casa neste estado. Você conhece a mãe dele. Para ela estar acordada esperando para ver com quem ele está chegando não custa nada...
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
O ponto
Não usamos códigos. Falamos na cara. Às vezes um pouco de discrição até cairia bem.
Fato é que não usamos outro idioma que não o nosso bom e claro português, e mesmo assim se "outro" nos ouvir, não entenderá nada.
Fazer a linha, coragem, mapoa, arrasa...
Este blog é pra quem entende o que eu falo. Um retrato simples das coisas que estão na nossa cara e percebemos ou não. Trivialidades e curiosidades, aberto e sem preconceitos.
Porque pra fazer a linha, antes é necessário fazer um ponto. Este é o meu.
Cadê o seu?
Fato é que não usamos outro idioma que não o nosso bom e claro português, e mesmo assim se "outro" nos ouvir, não entenderá nada.
Fazer a linha, coragem, mapoa, arrasa...
Este blog é pra quem entende o que eu falo. Um retrato simples das coisas que estão na nossa cara e percebemos ou não. Trivialidades e curiosidades, aberto e sem preconceitos.
Porque pra fazer a linha, antes é necessário fazer um ponto. Este é o meu.
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