domingo, 15 de fevereiro de 2009

O armário - Capítulo 1

4 amigos, 4 vidas, 1 história

Não se escolhe nascer branco, negro, com o pé chato ou alérgico à penicilina.
Na vida há escolhas que não são feitas por nós. Mas o que irá moldar nosso caráter e construir nosso futuro são as escolha que podemos fazer.

Jonas Araujo

Não sei porque continuamos a vir em boates. Durante toda a semana eles reclamam que odeiam este tipo de ambiente, enquanto espero ansiosamente o sábado. É sempre assim! Chegando aqui, nos divertimos, cada um arruma uma coisa pra fazer separadamente (inclusive eu), mas eu sempre acabo a noite sozinho.
Meu nome é Jonas Araujo, 21 anos. Comecei a frequentar estes ambientes a 3 anos atrás quando o Lucas me trouxe pela primeira vez. É verdade, preciso falar do Lucas primeiro. Claro que não conseguirei fazer isso sem falar do Carlos, o nosso Cacá.
Conheço a Lucas há 8 ou 9 anos. Estudávamos juntos e mantivemos uma amizade razoável no começo. Frequentávamos a mesma roda de amigos e isso foi suficiente para começarmos a conversar. Durante um ano nos suportamos. No próximo ano ficamos próximos. No outro, éramos melhores amigos, mas foi só no quarto ano de amizade quando terminamos a escola que eu percebi que não conseguia viver sem ele. Nos afastamos e percebi que ele estava seguindo outros caminhos. Caminhos que eu sempre soube que seguiria, mas nunca tive coragem de dar o primeiro passo.
Um ano. Este foi o tempo que demorou para eu me abrir com ele. Dizer que, além de grandes amigos, possuíamos alguns gostos parecidos. Foi aí que ele me levou para conhecer o mundo. E conhecer o Cacá.
Eu já havia pensado que seria difícil encontrar um outro grande amigo até conhecer o Cacá. Quando o Lucas começou a sair, ele logo conheceu o Cacá. Eles já me contaram uma vez como foi isto, mas não me lembro muito bem. Só o que me lembro é que quando conheci o Cacá, demorou uma semana para ficarmos inseparáveis. Os três. Saíamos sempre, e quando não era possível, recorríamos ao telefone.
Passou-se três anos até este momento. Eu, aqui, sozinho nesta boate, três horas da manhã, esperando Lucas decidir que já é hora de ir embora. Infelizmente, ele que decide. Ele tem o carro, ele sabe a hora de me buscar em casa e a hora de ir embora. Acho que vou até ele perguntar alguma coisa sobre algum drink, na esperança dele perguntar se eu já quero ir embora. Isso às vezes funciona, mas se ele estiver acompanhado esta noite, posso desistir.
Depois de um bom tempo procurando, só o que encontrei foi o Cacá bêbado em um canto, sendo cuidado por um homem que parece ser 10 anos mais velho que ele. Bonito sim, mas isso não disfarça o fato de ser velho. Não sei o que Cacá vê nestes tiozinhos. Mas eu sei o que eles vêem nele. O Cacá possui o melhor senso de humor do mundo. Estar do lado dele é se sentir feliz, alegre, jovem. Bom, talvez seja isso.
- Cacá, você viu o Lucas?
- Lá vem você querendo ir embora.
- Não é isso, só quero perguntar uma coisa pra ele.
Se tem uma pessoa que consegue ler minha mente, este é o Cacá. O que eu mais tenho medo é do que ele não diz sobre mim. Tenho a impressão que ele sabe tudo ao meu respeito, e tenho medo do que ele possa me falar. Enquanto isso, o "tio" continuava cuidando dele como se nada tivesse acontecido.
- Pára de reclamar, Jonas. Te vi a meia hora atrás atracado com um bonitão. Cadê ele?
- Ahn, cansei dele. Cabeça vazia, sabe? Quando disse sobre o meu trabalho, ele me perguntou o que eram leveduras.
- Tá, e o que é uma levedura?
- Pára com isso, cadê o Lucas?
- Sei lá, já procurou no banheiro?
Se tem uma coisa que não concordo com o Lucas é que ele simplesmente não importa com o que as pessoas pensam. Se o momento manda ele simplesmente levar alguém para o banheiro para simplesmente "resolver o assunto" agora, é o que ele faz. E, digamos, é o que ele faz com muita frequência.
- Lucas, você tá aí?
- Han, quem é?
- Sou eu, Jonas, abre aí
- Haaan, agora não dá, você pode esperar um pouco
- Quem é esse? - Disse uma segunda voz de dentro do banheiro
- É um amigo meu, espera um minuto.
- Pode deixar, Lucas. Continua aí, mas assim que der, me procura. Vou estar sentado naquela área perto da pista de dança.
E foi assim que eu terminei a noite. Meia hora depois apareceu o Lucas, dizendo que já estava cansado, e queria ir embora. Eu só fiz uma cara que dizia "ahn, já esta na hora de ir embora? Tudo bem, já que você quer assim". Resgatamos o Cacá (aparentemente mais bêbado que anteriormente), agradeçemos ao "tiozinho" e fomos embora.
- Jonas, fica de olho no Cacá, porque se ele vomitar no banco do meu carro, amanhã vocês dois vão ter que limpá-lo todo.
- Eu também? A culpa não é minha se ele bebe mais do que seu fígado consegue processar.
- Ahn, pelo menos segura a cabeça dele pra fora enquanto eu estiver dirigindo.
- Sabe quem me ligou hoje? O Diego.
- Diego? Que Diego?
- O Diego! Diego Magalhães.
- Olha, ele continua vivo? Pensei que tinha se trancado definitivamente em sua bolha social.
- Pára com isso, Lucas. Ele é legal.
- Sei, ele também me ligou um dia desses.
- Sério? O que ele queria?
- Não sei, não atendi. O que ele queria com você?
- Eu também não sei. E olha que eu atendi o telefone. Primeiramente me perguntou se eu tinha um livro pra emprestá-lo, depois começou a perguntar sobre o que eu estava fazendo da vida, perguntou sobre você e o Cacá.
- Ele está um pouco curioso demais, não?
- Eu também achei estranho. No final, ele me disse pra dar notícias e pra ligar pra ele se fôssemos sair algum dia desses.
- O Diego? Querendo sair com a gente?
- Eu sei. Às vezes ele só quis ser educado. Ou, sei lá, às vezes ele está se sentindo sozinho.
- Mas ele sabe que tipo de lugar a gente frequenta.
- Eu sei disso. É o que eu estou achando mais estranho. Você desconfia dele?
- Não sei, nunca pensei nele deste modo. Mas até que... não sei...
- O que a gente faz, liga pra ele já chamando de amigo e convida pra sair com a gente final de semana que vem?
- Olha, você eu não sei. Eu não vou fazer nada. Já basta ter que deixar o Cacá em casa neste estado. Você conhece a mãe dele. Para ela estar acordada esperando para ver com quem ele está chegando não custa nada...

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