O que nos mantém em pé são os laços que nos sustentam. Alguns desses laços podem ser desfeitos e alguns devem ser desfeitos. Um passo, ou um laço em falso, é o suficiente para desatar muitos outros.
Carlos Portugal
Meu nome é Carlos Portugal, tenho 22 anos. Sei, eu também sempre achei estranho colocarem o sobrenome Portugal para alguém. Sobrenomes devem significar outras coisas. Na verdade, eu não sei muito bem o que sobrenomes devem significar, mas definitivamente, países não.
Herdei este sobrenome da minha mãe. E provavelmente, por ter sido Hitler na última reencarnação, eu herdei esta mãe.
Acordei domingo com ela gritando na minha cabeça.
- Levanta, menino, que já estamos almoçando.
- Ai, não precisa gritar, eu tô ouvindo. E não me chama de menino, a senhora sabe que eu não gosto.
- E você quer saber o que eu não gosto? Eu não gosto quando você troca o dia pela noite. Quando resolve fazer Deus sabe o quê noite afora e me deixa acordada te esperando.
- A senhora não precisa ficar me esperando, eu já disse isso. Eu estava com o pessoal.
- Acontece que eu nunca sei onde você está ou com quem você está.
- A senhora sempre sabe, mas nunca acredita. Eu te avisei ontem que era aniversário de uma amiga rica minha. Festão em um apartamento. Cobertura, você tinha que ver. Tinha até piscina. Tinha um pessoal caindo na piscina, mas eu não animei.
- Tá bom, você vai almoçar agora com a gente agora?
- Estou indo, só vou lavar o rosto.
Eu não sentia a menor fome. Na verdade, eu não aguentaria fazer nada naquele momento. Se existisse os 10 mandamentos da balada, o último com certeza seria: "Aguentarás a ressaca sem reclamar". Eu não estava nada bem, mas em hipótese alguma minha mãe poderia perceber isso. Ela não poderia perceber nada além de um recém chegado de uma festa comportada em um bairro chique da cidade.
Meu relacionamento com minha mãe pode ser descrito como estar passeando nos alpes suíços em um dia de sol e de repente ir parar na fronteira entre judeus e palestinos em Israel. Nos damos bem na maioria do tempo, mas um movimento em falso e estamos em guerra novamente. Às vezes ela simplesmente me trata como um qualquer, não sei porque. Ou talvez eu saiba.
Nestas horas eu preciso de uma válvula de escape. E agora é a hora de falar de minhas válvulas de escape: Lucas e Jonas.
Encontrei o Lucas no lugar mais improvável de se encontrar um grande amigo: na Internet. Tudo começou a 4 anos atrás. Eu tinha acabado de me mudar para cá e estava procurando amizades. Na verdade, eu procurava por um começo. Todos nós passamos por isso. Chega um momento em que você diz a si mesmo: é agora. Preciso me assumir gay, pelo menos para a comunidade gay. Você não está nem pensando em se assumir para outros grupos, e só a idéia de fazer isso já chega a parecer um absurdo. Naquele momento eu só queria uma compania pra me mostrar como funciona o mundo, pelo menos o mundo que eu não conseguia ver.
Pensei muito no que fazer e no que dizer antes de realmente entrar naquela sala de bate papo.
* solteiro18a diz: oi
* curioso diz: oi
* solteiro18a diz: e aí, como vc é?
* curioso diz: hum, como assim?
* solteiro18a diz: ahn, me diz como vc parece
* curioso diz: eh, fisicamente vc está perguntando
* solteiro18a diz: vc é novo por aqui, né?
* curioso diz: ih... tá tão na cara assim?
* solteiro18a diz: hehehe, mais ou menos. Quer me encontrar em algum lugar?
* curioso diz: han... tá bom
* solteiro18a diz: hoje, 7 horas na porta daquele shopping do centro tá bom pra vc?
* curioso diz: eh, se está bom pra você...
* solteiro18a diz: de lá a gente decide pra onde ir
* curioso diz: ahn, tudo bem
* solteiro18a diz: então é isso
* curioso diz: espera, como eu vou te reconhecer?
* solteiro18a diz: fácil, vou estar com uma bermuda azul
* curioso diz: ahn, tá
* solteiro18a diz: beijo, gato
* curioso diz: até mais
Minha primeira impressão não foi a melhor. Tudo foi mais simples do que eu pensava. Na verdade, foi simples demais. Um estranho, que poderia ser um vovô de 50 anos, me convidando para encontrá-lo, sem ao menos perguntar primeiro sobre como eu sou ou o que gosto de fazer. Passei o resto do dia pensando se era assim que as coisas funcionam. Se todos só pensam em encontrar qualquer um em um lugar qualquer para transar e depois nunca mais ver pela frente. Será que eu estava pronto a entrar num mundo onde os relacionamentos duravam menos tempo que os períodos que eu estava em paz com minha mãe, isto quer dizer, quase nada. Eu lembro também de como foi estranha a sensação de ter outro homem me chamando de gato. Eu pensava em muita coisa. Estava elétrico. Tentava simular maturidade e parar de pensar no assunto, mas quando o relógio ia aproximando 6 horas já estava quase impossível disfarçar o nervosismo.
Cheguei na porta do shopping e me deparei com um menino, mais ou menos da minha idade, usando bermuda azul. Por um segundo fiquei aliviado por não encontrar um velho qualquer me esperando. Não sei se foi porque eu mudava o olhar sempre que ele me encarava, ou se foi porque minha testa suava muito, mas ele logo me reconheceu e veio conversar comigo.
- Curioso?
- Ahn, oi!
- Eu sou o Lucas.
- Ahn... é... muito prazer - eu disse, suando cada vez mais
- E vc? Curioso é seu nome de verdade?
- Não, não... desculpa... Me chamo Carlos. Cacá. Todo mundo me chama de Cacá desde pequeno.
- Nervoso?
- Eu... é... não.
- Então não entendo porque você está todo suado e rodando esta pulseira o tempo todo.
- Não é uma pulseira, é uma fita.
- Do convento em Vila Velha?
- Todo mundo pensa que é do nosso senhor do Bonfim. Você é a primeira pessoa que diz o contrário.
E conversamos. Como conversamos. E não saímos dali para ir a lugar nenhum, como foi o combinado. Depois veio um fast food, depois veio um cinema e antes mesmo de nós pisarmos para fora do shopping, já estava firmada uma amizade.
Viramos companheiros. Saíamos para todo lugar. Ele também não conhecia muito como funcionava o nosso mundo, então fomos nos apresentando as coisas. Nos apresentamos pessoas, boates, bares. Durante um ano fomos só nós dois.
Até que um dia o Lucas disse:
- Tenho que te apresentar alguém
- Oba, é homem?
- É sim
- Anh, já me interessei. Me passa a ficha completa.
- É o Jonas. Já te falei dele algumas vezes. Nós estudamos juntos, mas só recentemente ele veio me falar que torce para nosso time.
- Bonito?
- Muito! Mas vai com calma que esta não é a melhor qualidade dele. Menino pra casar.
E pela segunda vez, eu levei uma bela rasteira da vida. Pela segunda vez eu fui conhecer alguém com as piores das intenções e fiz um amigo. Desta vez foi um golpe triplo. Naquela noite, percebemos que funcionamos melhor em trio. Inconsientemente formamos um clã. O meu grupo, a minha válvula de escape.
De volta à realidade crua de um almoço de domingo, enquanto eu tentava engolir algo e fingir não estar com a pior ressaca do mundo, meu telefone toca na mesa do almoço.
- Alô?
- Oi amiga! - Disse uma voz que só poderia ser do Lucas
- Hum, oi, tudo bem?
- Nossa, que seriedade é essa?
- Nada, nada - eu disse, completamente sem graça. Enquanto isso, minha mãe fingia olhar para a comida, mas completamente atenta à conversa
- Já sei, sua família está aí por perto.
- É, mais ou menos...
- Ahn, vou falar rápido então. Vem aqui pra casa mais tarde. O Jonas tá vindo também. Daqui a gente decide se vai fazer alguma coisa.
- Tudo bem, até depois.
- Beijo, tchau.
Enquanto meus irmãos discutiam alguma coisa sobre o almoço, minha mãe lançou um olhar como se tivesse acabado de chegar àquela mesa.
- Quem era no telefone?
- Um amigo meu, nada não. Este macarrão está um pouco sem sal, não acham?
Mais tarde naquele dia, estávamos os três reunidos novamente na casa do Lucas, repassando os acontecimentos da noite passada.
- Levei mesmo aquele cara para o banheiro - disse Lucas para o Jonas - pelo menos eu admito. E eu vi você com, no mínimo, dois caras ontem. E ainda tem coragem de ficar fazendo cara de santa.
- Foram dois mesmo, mas pelo menos eu lembro o nome dos dois. Como é que chama mesmo aquele cara que você levou para o banheiro?
- Não tenho a menor idéia
- Tá vendo? Vocês dois são assim. Aposto que o Cacá também não deve lembrar o nome do "tio" de ontem. - disse Jonas
Então Lucas virou-se para mim e disse:
- Ahn, isso tanto faz, não é princesa?
Aquelas palavras me acertaram como um raio.
- O que você disse, Lucas? - enquanto levantei da cadeira bruscamente
- Que isso! Que susto foi esse?
- Eu perguntei do que você me chamou?
- Calma, Cacá. - Jonas disse assustado - Ele não disse nada. Era você que estava gritando da janela do carro para todos que passavam, chamando de princesa, não se lembra?
- Eu não disse isso - senti um ódio crescendo. Não era ódio do Jonas, mas não havia outro lado para canalizar aquele sentimento - e mesmo se tivesse dito, não precisa ficar me culpando por tudo que eu disse.
- Calma, ninguém está te reencriminando, princesa.
O Lucas não havia entendido que aquela brincadeira tinha ido longe demais. Ninguém iria entender como aquela brincadeira pode me afetar tanto. Então, sem explicações e sem despedidas, saí dalí naquele instante.
O único jeito de fugir daquela situação, era literalmente fugir daquele lugar. Às vezes, transparecer falta de educação é melhor do que trasparecer coisas que não queremos...
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