Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas...
Lucas Brandão
Jonas já está olhando para mim a 5 minutos. Ele não sabe muito bem o que dizer. Mesmo sentindo o mesmo que ele, não posso fazer esta confissão. O Jonas me olha de vez em quando com um jeito de quem procura um conselho, uma frase feita. Gosto de parecer que sei mais sobre a vida do que ele, isso me ajuda a mostrá-lo coisas que ele já percebeu e estão na cara.
Naquele momento, não havia nada a dizer, eu estava falhando da minha posição de conselheiro. O que falar? Cacá bateu a porta e saiu sem dizer nada.
Mas eu sentia alguma responsabilidade pelo Jonas. Era mínima, mas afinal de contas, fui eu quem o coloquei neste mundo, e cabe a mim dar para ele qualquer explicação sobre este mundo. O nosso mundo. Então, cabia a mim falar primeiro.
- Ahn, ele deve estar estressado. Você sabe muito bem como é a família dele. Com uma mãe daquela, até eu estaria me sentindo assim de vez em quando. Vamos dar um tempo...
- Não! Você sabe que isso não tem nada a ver com a mãe dele - disse Jonas, como quem quisesse discontar parte da raiva de Cacá em mim.
- Não precisa ficar assim, ele surtou e só. Não vai apelar que nem ele.
- Não venha me dizer que o Cacá é mais um daqueles que apelam com qualquer tipo de brincadeirinha, porque nós dois sabemos que ele não é. Aqueles comentários já estavam indo longe demais e você não parou. Quer saber, a gente não vai mais sair hoje mesmo, né? Eu vou embora.
E como quem buscava demostrar a mesma raiva do outro que saiu a pouco, Jonas também saiu, educado demais para bater a porta.
São estes os amigos que escolhi. É hora de falar deles.
Minha história começou a uns 4 anos atrás. Começou no dia em que eu consegui encarar o espelho e dizer para mim mesmo. Sim, eu sou gay. E não foi fácil conseguir fazer isso. Assim como foi mais difícil encarar o espelho depois disso. Mas eu resolvi encarar o espelho, e 2 dias depois resolvi encarar o mundo. É engraçado a primeira impressão que uma boite passa pra gente, principalmente quando se está sozinho. O lugar todo parece igual, as pessoas são escuras, vermelhas, verdes, e te olham como se soubessem que é a primeira vez que você está alí. Você passa entre os grupos como se fosse mais um item do cardápio. E te desejam.
Me encontrei em um lugar onde tudo o que sempre foi reprimido estava diante dos meus olhos. E foi alí que passei a minha noite, e a noite da próxima semana, e durante todo o mês. Tudo era permitido, amigos vinham fácil, viravam namorados, iam embora num estalar de dedos, enquanto mais um amigo era "promovido". Tudo era fácil. O mundo era meu.
E de repente eu percebi que este mundo sempre esteve em baixo do meu nariz. Linguajares, códigos, olhares em lugares publicos. O centro da cidade era gay, o cinema era gay, o shopping, a internet, a televisão, eu me sentia encaixado, reinando num mundo de mentira.
A avalanche de possibilidades me mostrou quantos lugares diferentes eu poderia conhecer alguém para sair, beijar, transar. Mas foi na internet que eu conheci o Cacá.
Final de semana, pais viajando, casa vazia, cama dos pais vazia. Na esperança de encontrar alguém para preencher essa cama comigo, entro naquele bate papo. Menos de 10 minutos entra um menino com apelido de "curioso". De duas, uma. Ou o curioso não possuía as mesmas intenções que eu ou então ele não sabia da regra número um de uma sala de bate papo: o apelido. O apelido utilizado numa sala de bate papo deve dizer pelo menos um pouco de suas intenções naquele lugar. Pensei em várias possibilidades antes de entrar nesta sala: "cama_vazia_hoje", "garotosozinho", "vem.deitar.comigo", mas no medo de parecer fácil demais, entrei somente com um aviso que estou solteiro e procuro alguma coisa pra fazer.
Marcamos de encontrar na porta de um shopping no centro. Não sugeri cinema, bar, restaurante, nada que pudesse nos prender por muito tempo e desse tempo para ir para casa logo. O plano estava todo na minha cabeça. Sentariamos em uma mesa, conversaríamos por 15 minutos e iríamos lá pra cara para ter uma noite inteira de sexo. Os 15 minutos viraram 30, que viraram 1 hora, 2 horas, que virou um cinema, que virou uma amizade. E quando eu pensei que o mundo naquela boite era grande, a gente saiu pra conhecer a cidade toda. Era uma boite por semana, ou um bar novo, sempre um ficante novo, de vez em quando 2 ou 3.
E por um ano foi assim. Já tinha esquecido das velhas amizades, só queria este mundo. Foi quando um grande amigo me ligou e disse que precisava conversar comigo. Jonas sempre foi um cara admirável. Nossa amizade começou devagar, mas em 3 anos éramos inseparáveis. Foi quando as aulas acabaram e nos distanciamos. Coincidiu com a época que resolvi encarar o espelho e todo meu antigo mundo ficou pra trás.
- Que foi, Jonas?
- Eu preciso te contar uma coisa.
- Pode falar, e conta comigo para o que quiser.
- Bom, não sei como dizer, mas é algo que eu sempre senti, mas nunca falei pra ninguém. Eu não sei mesmo como te falar isso
Naquela hora eu sabia exatamente o que ele queria me falar, mas eu deixei ele tomar o seu tempo. Foi preciso 40 minutos para ele conseguir dizer as três palavras: "eu sou gay". Sim, eu poderia ter facilitado pra ele, mas ele precisava tirar este peso das costas e encarar essa realidade. Sim, ele é gay, nós somos gays, não há nada errado com isso, e há um mundo inteiro lá fora esperando a gente. Foi quando eu comecei a apresentar o mundo para ele, começando pelo Cacá.
Uma boite nova inaugurava aquela noite e fomos os três:
- Carlos! Carlos Portugal!
- Como?
- Ahn, deixa quieto, pode me chamar de Cacá!
-Aqui é sempre tão alto assim? Quase não estou te ouvindo.
-Então se acostume, a gente nem entrou na pista de dança ainda.
Fui buscar uma bebida e quando voltei eles já tinham ido à pista de dança. Cacá já começou a apresentar o mundo a Jonas. E no dia da inauguração da boite foi a inauguração de uma nova amizade. Após este dia, os 3 eram melhores amigos. Inseparáveis. Nenhuma briga
Até hoje...
15 minutos depois, Jonas estava de volta à minha porta
- Desculpa ter gritado com você, não vamos ter mais cansaços assim, já basta o Cacá.
- Não, tudo bem, eu exagerei mesmo. Vamos esquecer isso, fica aqui, vamos ver um filme.
Jonas passou pela porta da minha casa, entrou no meu quarto e eu tranquei a porta. Ele senta na cama e eu na poltrona. Coloquei uma música lenta para tocar. Coloquei minha mão na coxa dele e perguntei:
- E aí, que tipo de filme você quer ver?
Jonas parece assustado com isso.
- Ahn... na verdade é melhor eu ir mesmo. Tenho muito a fazer em casa...
E saiu. Vai embora e bate a porta com a mesma delicadeza de antes. O que mais estranho poderia acontecer nesse dia de hoje?
De repente o telefone toca. É o Diego
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário