Diego Maranhão
Está tudo escuro.... Será que eu morri? Será que eu consegui o que queria? Será que eu realmente queria isso?
Abro os olhos e tudo continua escuro... É, eu morri mesmo...
Está clareando. Não claro como se fosse luz do dia. Um claro meio ofuscado. Consigo enxergar melhor agora. Um teto. Um teto verde claro, estranho, mas real. É, eu não morri.
Desconheço qualquer teto verde claro. Com certeza não estou em lugar nenhum que conheça. Começo a ouvir agora. Uma voz aguda de uma mulher que grita com alguém:
- Como você pode não tem nenhum telefone de contato dele? Você não é amigo dele? Precisamos do histórico médico dele para podermos medicarmos caso seja necessário!
- Ué, eu não tenho! Eu não conheço ele! Quero dizer, eu conheço sim, mas... Ahn, eu não sei o telefone dele
Eu reconheço a segunda voz. Essa voz já me causou sentimentos diferente durante algum tempo. Alegria, tristeza, medo. Alguns sentimentos impróprios... É Lucas. Ouvindo melhor a voz dele, me vem uma cena na cabeça.
Estou lembrando melhor agora. Eu estava diante da ponte. Não, eu estava do outro lado da grade. Já estava alí a algum tempo. Só esperando coragem. Coragem para pular, ou coragem para voltar para o outro lado da grade, voltar para minha vida. Sinceramente, não sei qual das escolhas é a pior. Devo ter ficado por alí por uns 10, 15 minutos, e mesmo assim eu não consegui saber qual escolha tomar. Nenhuma das duas escolhas me parecia ser agradável. Mas enfim. Ouvi um carro se aproximar, vejo uma pessoa descer do carro, depois desce outra, e depois mais uma. Três pessoas corriam em minha direção. Naquele momento, já tinha feito minha escolha. Iria pular. Preferia soltar a minha mão do que ter que escutar três pessoas dizendo que eu não sei valorizar a minha vida. Mas, que vida? Esse misto de sofrimento, angústia e desespero poderia ser chamado de vida? Se os três chegassem em minha direção, e eu contasse a minha história, eles me compreenderiam e me ajudariam a pular?
Já havia soltado uma mão, mas de repente, eu vi um anjo do Senhor chegando em minha direção. Um sinal do céu correndo para mim. Aquele primeiro vulto correndo em minha direção na ponte escura começou a tomar forma a medida que se aproximava. E quando estava a menos de 3 metros, eu reconheci Lucas. Respirei fundo, meu estômago veio até minha boca, e tudo começou a se apagar. Mesmo tendo escolhido pular da ponte, eu mudei de idéia na fração de segundo antes de desmaiar. Tarde demais.
Agora eu consigo ouvir outra voz vindo do corredor. Sei muito bem quem é. Cacá. Eu já o vi algumas vezes. A última vez que eu o vi foi ontem. E eu sei que ele me viu também. Mas eu corri a tempo.
A situação está mais clara pra mim agora. Consigo ver e escutar com perfeição. Estou num quarto quase vazio, exceto por uma cama e uma bolsa de soro no alto, de onde desenrola uma corda que vai até a veia do meu braço. A porta está fechada, porém do outro lado dela algumas pessoas discutem alto o suficiente para serem ouvidas daqui. Sei que Lucas e Cacá estão lá. Sei também que estão discutindo com uma mulher, talvez enfermeira, médica, tanto faz.
Agora que estou completamente desperto, todos os meus sentimentos voltaram. Incluindo a vergonha. Não quero ter que encará-los, por isso vou ficar aqui até conseguir pensar em alguma desculpa que não seja o suicídio. Apesar do que, não iria adiantar se eu falasse que estava do outro lado da grade de uma ponte aquela hora da noite simplesmente tomando um ar ou vendo a paisagem. Ai, meu Deus, o que eu faço? Meu Senhor, me mande um resposta. É melhor ficar aqui deitado mesmo e esperar
Um segundo depois ouço uma voz chegando ofegante. É a voz de Jonas. Claro, tinha que ser. Sempre foi assim na época de colégio e mesmo depois dele. Por onde andava o Lucas, Jonas estava lá. Jonas parece chegar correndo à discussão e diz
- Consegui! Consegui! Liguei para um pessoal da escola e consegui o telefone da casa dele. Vamos ligar para os pais dele.
Não, isso não. Levando da cama o mais rápido que posso, levando o soro comigo, e abro a porta
- Não, isso não!!
- Diego? - Cacá é o único que consegue dizer meu nome
Jonas e Lucas estão olhando para mim como se eu fosse um morto que renasceu. A enfermeira olha como se estivesse aliviada por eu ter acordado
- Eh... Por favor... Não ligue para meus pais...
- Diego, você tá bem? - Diz Jonas preocupado
- Sim, sim. Eu tô ótimo. Desculpe o transtorno, eu estou bem. Só desmaiei
Todos fazem um grande silêncio. Ninguém sabe muito bem o que dizer, muito menos eu. Jonas me olha como se eu fosse um amigo de longa data e ele estivesse preocupado. Cacá me lança um olhar desconfiado, como se eu pudesse tentar qualquer outra coisa agora mesmo. E Lucas me olha como se estivesse tentando entender quem eu sou.
Mas, quem sou eu?
Minha história é a seguinte.
Sou o segundo filho de uma família de 5 irmãos, todos batizados em nome de Jesus e ungidos pelo Espírito Santo. Fomos criados segundo as leis da Igreja Católica, seguindo rigorosamente seus mandamentos. Dia de rezar é dia de rezar, dia de jejum é dia de jejum! Posso contar nos dedos as vezes que faltei numa missa durante os anos de minha vida.
Dos meus 4 irmãos, fui quase o pai dos 3 mais novos e torturado pelo mais velho. Mesmo assim, tivemos uma infância feliz, até mais ou menos meus 13 anos de idade. Foi nessa idade que comecei a ser tentado pelo demônio. Me lembro como se fosse ontem aquele dia. Em um sábado comum, alguns primos foram ao clube e me chamaram. Três primos, na época com idade entre 20 e 25 anos. Tivemos uma ótima tarde, ficamos na piscina, lanchamos e até jogamos bola. Antes de ir embora, sugeriram passarmos todos no vestiário para tomar banho. Chegando lá, o demônio deu sua primeira cartada neste jogo. Foi naquele dia que o demônio iniciou esta batalha, a qual estou lutando até hoje.
Meus três primos chegaram no vestiário totalmente vestidos, e lá dentro, começaram a tirar a roupa. Quando os três estavam só de sunga, eu não conseguia mais me mover. Ao ver o primeiro tirar a sunga, eu senti coisas que nunca havia sentido antes. O segundo, meu primo mais velho, também ficou completamente pelado, enquanto nem respirando eu estava. Antes do terceiro fazer a mesma coisa, eu saí correndo dalí. No momento que eu pisei do lado de fora do vestiário, eu sabia muito bem o que era aquilo que eu estava sentindo. Eu sabia o nome daquilo, mas eu não acreditava que estava acontecendo comigo. Não, não estava acontecendo comigo, foi só impressão minha... Meus primos estranharam, perguntaram se estava tudo bem, mas dizendo que era somente um mal estar, tudo se esclareceu, e fomos embora momentos depois.
Depois daquele dia, fiquei um bom tempo com aqueles pensamentos afastados de minha cabeça. Eu ganhei algumas batalhas, o demônio ganhou outras... Enquanto eu ganhava, eu procurava manter a calma e ficar afastado de qualquer tentação, incluindo meus primos. Quando o demônio vencia, eu me afundava em promessas a quantos santos forem necessário.
Muita coisa aconteceu para que pudesse chegar ao ponto que está hoje em dia.
Voltando à realidade, todos continuam olhando para mim, sem saber o que fazer. Até que a enfermeira pergunta:
- Você faz uso de alguma medicação de uso contínuo?
- Não, senhora...
- Não precisa me chamar de senhora. Você já teve histórico de desmaio, convulsão, taquicardia?
- Não, nada disso
- Você sentiu alguma dor antes do desmaio? De que você lembra?
- Só o que eu lembro é que...
Antes de terminar a frase, sou interrompido por Lucas
- Eu já te disse isso 5 vezes, moça! Nós 4 estávamos passeando pela ponte da cidade, e de repente o Diego começou a se sentir mal e desmaiou.
- Sim, eu já ouvi isso de você 5 vezes! Agora eu posso ouvir a versão do seu amigo, por favor?
Lucas fica em silêncio, indignado. Então ele não contou nada para ela? Ele está tentando me encobrir? É melhor mater essa versão mesmo... A enfermeira pergunta.
- E então, posso saber de você o que aconteceu?
- Ahn... é isso mesmo. A gente estava andando, eu comecei a me sentir mal e desmaiei...
Ela me olha desconfiada, mas cede
- Ok. Vou te encaminhar para um médico para ele fazer alguns exames e ver se posso te liberar. Vocês três, fiquem aqui esperando...
Enquanto eu virava as costas e acompanhava a moça, podia ouvir o Lucas sussurando "enfermeira chata...". Pela primeira vez hoje eu consegui sorrir. Pela primeira vez em muito tempo eu consegui sorrir. De uns tempos para cá, o demônio vem ganhando mais batalhas que eu. Mas eu vencerei a guerra, tenho certeza...
Depois de alguns minutos e poucos exames, volto para o lugar onde estava. Lá, ainda se encontravam Jonas e Cacá.
- Gente, não precisava ter me esperado não. Já valeu tudo o que vocês fizeram até aqui por mim.
- Preocupa com isso não, Diego. Amigo é pra essas coisas
Amigo? Conheço Jonas a muitos anos e ele nunca me chamou de amigo. Sei que na cabeça dele eu sempre fui o menino estranho da sala.
- E o Lucas, foi embora?
- Ahn, foi dar umas voltas, deve estar tentando arrumar um homem pra...
Antes de Cacá terminar a frase, Jonas dá um empurrão e termina a frase por ele:
- Ahn, deve estar por aí. Vamos sentar aqui, enquanto a gente espera ele voltar
Eu realmente queria sair dalí agora e ir embora correndo. Mas depois de tudo que esses meninos fizeram por mim, não queria parecer mal agradecido. Sentamos, ficamos um tempo em silêncio, até que Jonas pergunta.
- Eh... Diego... Bom. O que exatamente você estava fazendo lá naquela ponte?
Não consigo dizer uma palavra. Continuo de cabeça baixa por longos segundos, pensando no que dizer. Até que Jonas toma a iniciativa de novo.
- Não, tudo bem. Já tivemos muita emoção por hoje. Amanhã nós conversamos sobre isso...
Amanhã? Como se fôssemos amigos e amanhã eu fosse na casa dele jogar video game... Não quero parecer mal agradecido, mas também não quero as pessoas com pena de mim.
Mais alguns longos segundo, Lucas não volta ainda. Cacá pergunta
- Diego, posso fazer uma pergunta?
Se eu pudesse, diria "não". Mas eu disse sim
- Eu tive a impressão de ter te visto ontem. Vc estava passando alí perto daquela boite nova que tava inaugurando?
Essa pergunta eu tenho que responder:
- Não, claro que não. Ontem eu fiquei em casa. Eu não saí ontem... Não mesmo.
E mais alguns longos segundos de silêncio. De repente, do fundo do corredor, vem Lucas andando em nossa direção apressado. Assim que ele percebe que nós os vimos, ele somente diz "Vem, estou indo pro carro", vira as costas e sai mais apressado ainda. Atualmente tenho muito pouco contato com Lucas, mas qualquer um notava que seus olhos estavam vermelhos.
Vamos para o lado de fora do hospital e Lucas já está dentro do carro. Chegando mais perto, podemos ouvir barulho de choro. Não um choro normal, mas quase um choro de criança. Assim que ele levanta a cabeça e nos vê, limpa rapidamente as lágrimas e abre a porta do carro. Entramos, sentamos. Lucas, ainda com a voz fraca, me pede para dizer o caminho da minha casa. Jonas pergunta
- Lucas, tá tudo bem?
- Tá sim... tá sim... Diego, vai me dizendo o melhor caminho para chegar lá
Eu só concordo com um aceno de cabeça. Nenhuma outra palavra é dita até o caminho de casa. Os olhos de Lucas estão tão perdidos que poderiam errar o caminho a qualquer momento... Eu desco, agraceço mais um vez a todos e fecho a porta. Vejo o carro dobrar a esquina e entro em casa. Assim que entro, meu pai me recebe:
- Diego, você sumiu por muito tempo, e nem levou o celular. Onde você estava? Tá tudo bem?
Eu olho nos olhos do meu pai. Queria dizer tanta coisa. Queria dizer: me desculpe. Ou então: socorro, me ajuda. Mal ele sabe de tudo que aconteceu esta noite. Mal ele sabe de toda a guerra que eu venho vivendo. Mal sabe que o demônio vêm ganhando tantas batalhas... Queria olhar nos olhos dele e dizer tanta coisa... Então eu digo
- Tá sim, pai. Tá tudo bem