Carlos Portugal
Madame Joaninha! Não sei como funciona a vida de um dono de boite. Ok, um dia ele acorda e fala: "vou fazer uma boite gay! Tem tanta bicha no mundo, deve dar certo". Mas e nome? Será que tem pessoas contratadas exclusivamente para criar nome de boite gay? Geralmente são misturas de cores e nomes de animais ou nome de pessoas. Toda boite gay possui um nome diferente. Deve significar como um aviso para os héteros. Um hétero que resolve conhecer as boites da cidade nunca entraria em um lugar que se chama Madame Joaninha! Tá na cara que é uma boite gay!
Enfim, o que importa é que o namorado do amigo de um amigo do menino que eu tava ficando é DJ e vai tocar na Madame Joaninha, uma casa nova que tá abrindo. Na quarta ele me avisou isso, falou que o lugar vai ser super bem frequentado, então já resolvi ir. Mandei uma mensagem para os meninos na mesma hora, e após a confirmação, recebi uma outra mensagem do Jonas, chamando para comer algo no shopping. Hum... ok!
- Jonas, você tá legal? Jonas, você tá um pouco branco...
- Cara, tô ferrado.
- O que foi, Jonas? Quem era aquele menino que estava aqui na mesa com você?
E Jonas contou sobre a faculdade, o time, o menino da faculdade, sobre o fato dele não poder de jeito nenhum sair do armário para o pessoal da sala dele. Em momento nenhum ele me culpou, mas eu sei que a culpa é minha. Nós gays não nos importamos com esse tipo de coisa. Eu, Lucas, o Pedro e o Lourenço na mesa do lado fechando e rindo alto... Eu entendo que ele não queria que o menino visse que ele estava com a gente e nesse momento eu voltei à mesa para pegar o celular dele. Jonas tem um jeito cuidadoso de falar esse tipo de coisa: "eu não queria que ele pensasse que eu estava com aquela bicha pintosa da outra mesa...", mas não era só a bicha pintosa. É todo o contexto gay que foi formado na mesa ao lado. Mas eu entendo...
Sim, o Pedro e o Lourenço. Pedro tem cara de ser mais velho, mas é bonito. Loirinho, carinha de importado... O Lourenço... bom, digamos que ele tem traços bonitos. Ok, vou ser honesto, ele é uma mocinha... Mas esses são os melhores, os mais engraçados! Os estereótipos são sempre os mais engraçados da roda. Ou é o gordinho, ou o afeminado, o travesti...
Nem deu tempo de explicar para o Jonas quem era Pedro e Lourenço, os meninos da mesa ao lado. Depois da confusão armada, cada um foi para sua casa.
Ah, minha casa. A fonte de todos os meus problemas! Não toda ela, mas minha mãe ajuda muito... Eu lembro como foi a primeira vez que eu saí para uma boite gay. Tinha conhecido Lucas a poucos dias até que ele me ligou lá em casa. É claro, minha mãe atendeu. Minha mãe sempre fez questão de conhecer todos os meus amigos. Acho que assim ela pensa ter mais controle sobre aonde eu vou. Depois que desliguei o telefone com Lucas, ela foi imediatamente ao meu quarto.
- Quem era ao telefone?
- Lucas, um amigo meu
- Lucas? Engraçado, nunca ouvi falar dele. Você conheceu onde?
- Ahn, mãe. Amigo de amigo.
- Hum... vocês vão sair hoje?
- Ahn, não sei, mãe. A gente vai reunir o pessoal na casa de alguém e depois decidir
O único jeito que consegui para dobrar minha mãe é responder muitos "não sei". Ela sempre pergunta aonde eu vou, e com quem eu vou. Eu sempre saio com "a galera", e nunca sei pra onde vamos.
Este sábado não poderia ser diferente.
- Vai sair?
- Sim, vou encontrar a galera
- Você tá saindo demais, não? Aonde você vai?
- Ahn, vamos encontrar no centro e depois decidir...
A mesma desculpa, mas hoje a boite é nova. Vamos conhecer a Madame Joaninha.
Lucas me buscou em casa, depois buscou o Jonas, e fomos para a boite. Marcamos de encontrar com Pedro e Lourenço lá na porta. Como toda inauguração, uma fila enorme na porta. Jonas parece melhor que ontem, mas mesmo assim, eu prefiro perguntar:
- E aí, Jonas? Melhor?
- Ahn... Tô tentando não pensar nisso. Espero que ele não tenha notado nada... Mas enfim, não me resta nada a fazer
- Pois é, cara. Relaxa. Vai tá cheio de bofe bonito aí hoje, você vai esquecer isso rapidinho...
Nunca tive muita paciência para filas, mas enfim, quem tem? Depois de vinte minutos e a fila andou pouco. Eu olho para o lado e levo um susto como se tivesse visto um fantasma. Mas um fantasma que em pouco tempo some no meio da multidão. Não sei, só vi de relance... será?
Finalmente, quase perto da meia noite, conseguimos entrar. A sensação é a mesma de entrar em um carro novo. Tudo é bonito, o cheiro é de novo e o som é limpo. Mas é só rodar alguns quilômetros que ele vai parecer exatamente igual aos outros.
Uma da manhã, já encontramos com Pedro e Lourenço. Pedro sabe que parece estrangeiro e faz de tudo para parecer mais ainda. Blusa de manga comprida com a manga dobrada até o cotovelo, jeans, sapato e cinto. Todos se juntam em uma roda só, até que o Jonas me chama num canto
- Você não acha que o Lucas tá bebendo demais não?
- Calma, Jonas. Deixa ele curtir a noite.
- Pois é, mas ele tem que dirigir hoje ainda
- Por isso mesmo, ele sempre tem que dirigir, e nunca pode beber, deixa ele curtir só hoje...
Duas da manhã continuamos em roda, agora dançando na pista. Jonas sumiu já faz algum tempo, mas eu imagino o que ele esteja fazendo. Lucas continua bebendo, andando torto. Bom, pelo menos ele ainda consegue ficar em pé. Lourenço está a um tempo olhando para um cara do outro lado da pista. Alto, malhado, camisa de manga.
- Gente, tem um bofe mara olhando pra mim do outro lado da pista.
- Sério, Lourenço? Cadê, mostra ele.
Lourenço aponta para um gostosão com cara de desprezo do outro lado do salão. Lucas, com o olhar já um pouco torto esboça um sorrizinho. Lourenço percebe
- O que foi? Ele não pode estar olhando pra mim não?
- Ahn, cara. Presta atenção. Um homenzão daquele?
Estou começando a dar razão para o Jonas, talvez o Lucas tenha bebido demais
- Ok, bonitão! Você fala como se toda a boite estivesse olhando para você. Larga de ser invejoso
- Vai se fuder, bichinha! Olha bem como você fala comigo!
Antes de começar a abrir a roda, eu puxo o Lucas para um canto.
- Pô, Lucas! Tá querendo ser expulso daqui?
- Ahn, essa pintosinha ficou me enchendo o saco. Fica se achando a Juliana Paes, pensando que a boite inteira tá olhando pra ele. Essa mocinha...
- Cara, não tá na hora de você parar de beber, não? Já deu muita confusão por hoje e você ainda tem que dirigir.
- Ahn, Cacá... Larga de ser chato, me larga
Lucas me solta e cai num sofá. Corro para perto do bar e encontro Jonas trocando telefone com um cara. Sem medo de parecer mal-educado, puxo o Jonas, que quase não tem tempo de despedir do peguete
- Calma, Cacá! Precisa disso tudo?
- Cara, eu não tô aguentando isso mais...
- Ahn não, lá vem você de novo... Eu juro que desta vez eu passei o meu telefone certo!
- Pára, Jonas, não é isso. O Lucas tá insuportável. Ele bebeu demais, xingou o Lourenço, quase saiu no tapa.
- Sério? Cadê ele?
- Tá jogado num sofá alí. Eu desisto dele! Vai lá pelo menos convencê-lo que ele não pode voltar dirigindo...
Lucas quase desmaiado, Jonas tomando conta dele. Confesso, só consigo pensar em uma coisa: correr atrás do prejuízo. É assim mesmo! Pergunte para todos os gays da boite, o que foram fazer alí. 70% falam que foram dançar, se divertir, 30% falam que foram conhecer pessoas diferentes, mas 100% dos homens gays solteiros em uma boite estão alí para beijar na boca. Ok, às vezes a intenção é um pouco maior que isso, mas o começo de tudo é o beijo. E eu nem cheguei perto de beijar hoje. Tô deste quinta investindo no Pedro, acho que depois dessa, as minhas chances foram pro espaço!
Três da manhã, vejo o Lourenço num canto pegando o gostosão (ou sendo pegado), as pessoas começam a ir embora, e as músicas começam a ficar iguais. A cada 10 minutos eu passo no sofá, mas nem sinal de Lucas ou Jonas. Num destes intervalos entre vigiar o sofá e procurar um rosto diferente na pista de dança, eu vejo o Jonas.
- E aí, Jonas, cadê o Lucas? Tô procurando vocês a um tempão.- Ahn, a gente tava no banheiro, ele vomitou muito...
- E agora, onde ele está?
- Tá alí jogado no sofá, acho que tá meio dormindo. Escuta Cacá, aconteceu uma coisa estranha...
- O que? O Lucas brigou com mais alguém?
- Não, não é isso... assim... no banheiro... Escuta, Cacá, você acha que existe uma chance do Lucas estar dando em cima de mim?
- Ahn, cara, não esquenta não. O Lucas hoje tá estranho. Ele tá falando coisas sem sentido... O que aconteceu no banheiro?
- Eu não digo só por hoje. Você acha que ele pode estar interessado? Ele falou isso para você algum outro dia?
- Ahn, Jonas... Acho difícil. Tipo, é o Lucas, vocês se conhecem a tanto tempo. Estudaram juntos no colégio. Ahn, por falar nisso, o tal do Diego que estudou com vocês, lembra?
- Lembro sim, o que tem?
- Eu tive a impressão de ter visto ele hoje. Na fila para entrar aqui.
- Você tá falando sério?
- Ahn, mais ou menos, foi muito rápido. Eu não conheço ele direito, não sei dizer com certeza. Vi um vulto, achei que fosse ele.
- Pois é, o Diego tá muito estranho
E então Jonas é empurrado pra frente, e quase cai no chão. Lucas surge por trás, rindo e querendo agradar:
- E aí, meninas, o que vocês estão fazendo?
- Calma, Lucas, você quase jogou o Jonas no chão
- Mas ele tá de pé, não tá? Para de fazer alarde por qualquer coisa...
- Eu fazer alarde por qualquer coisa? Não foi você que quase saiu no tapa com o Lourenço?
- Ahn, aquela bichinha tava me provocando e você fica defendendo ela! Cara, não tô te suportando hoje. Me dá a chave, vamos embora
- Lucas, você já tirou todo mundo do sério hoje. Você não vai dirigir esse carro.
- Ahn é? E quem vai dirigir, a princesa aí?
Estas palavras me acertaram mais forte do que da primeira vez. Num impulso eu fechei o punho, depois fechei os olhos e usei toda a força que me restava. Quando abri meus olhos, só consegui ver o Lucas desmaiado no chão. O sangue do nariz escorrendo para a boca, Jonas agachando no chão... mais nada...
Virei as costas e saí. Não ia adiantar ficar alí, a multidão iria se formar e eu seria expulso mesmo
Não adiantaria ficar alí, ninguém ia entender o meu lado da história...
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