O peso das atitudes que tomamos sempre retorna, nem que seja como um peso na conciência.
Lucas Brandão
Mesmo com os olhos fechados, sempre sabemos a hora do dia. Você pode estar embaixo do cobertor, com a cortina do quarto fechada, mas sempre sabemos que parte do dia é. Acordei e fiquei com o olho fechado por um tempo, mas sabia que era tarde. Engraçado, por um segundo, era a única coisa que eu sabia. Estava no meu quarto, dormindo no meio da tarde. Falta de memória, dor de cabeça, intolerância à luz, gosto estranho na boca. Isso só poderia ser ressaca. Um jato de memória me veio à cabeça. Inauguração da nova boite da cidade. Madame Joaninha. Aff... nome estranho... Cacá convidou a gente, parece que um conhecido de um peguete dele ia tocar lá, ou algo assim, até reunimos no shopping essa semana, conhecemos o André e o Lourenço... Ahn, mais um jato de memória, fila da boite, luzes, bebidas, encontramos com o André e o Lourenço lá dentro... Engraçado, não lembro de ter bebido tanto. Na verdade, não lembro de mais nada. Meu carro! Como eu voltei pra casa? Tô deitado na minha cama, de cueca. Alguém me deu banho? Essa é a mesma cueca que eu usei ontem? Como não consigo lembrar de nada?
O Cacá deve ter me deixado em casa. Pego meu telefone e ligo para ele. O telefone toca até desligar. Tento de novo, parece que toca duas vezes e a ligação é cancelada. Engraçado, se eu não conhecesse o Cacá, diria que ele desligou pra não me atender, mas ele não faria isso. Ahn, tanta coisa a mais para me preocupar, essa dor de cabeça...
Levanto, e vou lavar o rosto. Meu nariz está sensível. Olhando mais perto, vejo que ele está um pouco vermelho. Esquento um resto de almoço no microondas, e enquanto isso, meu telefone toca, provavelmente o Cacá estava dormindo quando eu liguei e agora ele está me retornando. Na verdade, era o Jonas.
- Fala, bicha!
- Lucas, você tá bem?
- Calma, que voz desesperada, tô bem sim... Na verdade, eu tô com uma ressaca filha da mãe. O mundo tá todo rodando... Tem notícias do Cacá? Não tô conseguindo falar com ele no telefone...
- Cara, acho que é melhor você dar um tempo pra ele, amanhã vocês conversam...
- Dar um tempo, como assim? Aconteceu alguma coisa séria ontem? Quem me trouxe pra casa, você sabe?
- Você não lembra de nada que aconteceu ontem?
- Sério, não lembro! Não lembro nem de ter bebido tanto assim... Me fala, o que aconteceu?
- Lucas, vou dar uma passada aí, blza? Pessoalmente a gente conversa...
Isso agora me preocupou. Já bebi outras vezes, já esqueci o que fiz, mas ontem eu não estava assim. Sim, eu esqueci, mas eu não bebi tanto assim. Eu estava dirigindo, eu nunca faria isso. Será que eu bati o carro? Vou até a garagem, parece que está tudo bem com o carro... Melhor esperar o Jonas chegar mesmo. Termino o almoço, arrumo o meu quarto e entro no banho. Assim que termino, escuto a campainha, enrolo em uma toalha e vou atender.
- Que bom que você chegou, Jonas, eu já tô preocupado.
- Pois é, cara. Achei melhor a gente conversar pessoalmente.
- Claro, claro... Vem cá pro meu quarto que eu só tenho que vestir uma roupa
A preocupação toda no rosto do Jonas some e é substituída por tensão. Ele começa a gagejar
- Ahn, eh... Quero te atrapalhar não, veste uma roupa que eu fico te esperando aqui...
- Larga de besteira, Jonas, vem cá
Entramos no quarto e eu fecho a porta. Enquanto eu procuro uma cueca limpa, percebo que a tensão no rosto do Jonas aumenta. Ele começa a falar, mas sem olhar pra mim. O olhar do Jonas está perdido, parece que está procurando um ponto no quarto em que ele possa fixar o olhar
- Então, vocês brigaram feio ontem lá na boite.
- Nós quem? Eu e o Cacá brigamos?
Encontro uma cueca, me desenrolo da toalha e a visto. Jonas parece que está quase se levantando para ir embora
- É, vocês dois. Ele te deu um soco que arrancou sangue do nariz. Engraçado, você não lembra disso?
Levo um susto com isso. O Cacá, me bateu? Pensei que eu pudesse ter caído, por isso o nariz estava doendo. Mas o Cacá me bateu? Sento do lado de Jonas e coloco a mão na perna dele.
- Eu não tô acreditando nisso. Você tá falando sério mesmo.
Jonas parece não estar mais ouvindo o que estou dizendo. Nunca o vi tão tenso assim. Dá para sentir ele contando a própria respiração. Tanta coisa aconteceu e eu não sei...
- Foi você que me deu banho?
Uma noite apagada da minha memória. Tantas dúvidas sobre o que aconteceu, tantas perguntas que eu podia fazer, mas parece que eu fiz a pergunta errada. A tensão toda no rosto do Jonas parece que explodiu depois da última pergunta.
É a segunda vez que ele levanta e vai embora da minha casa. Dessa vez, menos educado que na primeira. Com um simples "tenho que ir", ele levantou e saiu...
Eu simplesmente não consigo acreditar nisso. De repente, todo o problema do Cacá desapareceu da minha cabeça. Atualmente, o Jonas tem ficado muito tenso quando está perto de mim. No shopping, a gente foi ao banheiro, ele nem olhou na minha cara... Aqui, neste mesmo quarto, na semana passada...
O Jonas sempre foi um cara muito certinho. Certinho ao ponto de ser careta. O Cacá não, ele é meu companheiro de máfia, conversamos sobre tudo, principalmente sobre sexo. Esse tipo de coisa é tabu com o Jonas. Não sei porque sexo é tão tabu hoje em dia... Todo mundo faz, todo mundo vai fazer. Lembro como foi minha primeira vez...
Não tinha nem duas semana que eu tinha começado a conhecer o meio gay. Sempre que podia, eu ia a uma boite que tinha no centro da cidade, e chegando lá, tentava me inturmar em algum grupo que parecesse amigável. Foi numa dessas que eu conheci um cara no balcão do bar e ele me chamou para conhecer a turma dele. Pelos olhares, eles sabiam que eu era novato no meio. Às vezes, o meio gay pode parecer muito repetitivo, e sempre que aparece uma "carne fresca", ela fica em promoção no açougue. Esse cara, não me lembro o nome dele, me apresentou para os amigos em voz alta. Uma rodinha de 6 ou 7 pessoas. Enquanto eles iam dizendo o seu nome, um deles grita "é carne fresca no pedaço". Não consegui identificar de onde vinha a voz, mas depois disso, começaram os murmurinhos e comentários. Então, os comentários viraram um questionário. Todos começaram a me fazer perguntas em voz alta, e eu me tornei o centro das atenções do grupo. "Onde você mora?", "o que você faz da vida?", "a quanto tempo você está no meio?". Mas, para eu me tornar o centro definitivo das atenções bastou somente uma pergunta: "você é virgem?". Essa pergunta eu vi muito bem de onde vinha. Dinho, aparentando ter uns 30 anos, com camiseta regata preta, me chamou a atenção não pelo rosto, mas sim pelo tamanho dos braços à mostra. Como responder a essa pergunta? Respondo "não", e tento mostrar que entendo do assunto? Tenho só duas semanas no meio gay, estou querendo conhecer pessoas e lugares, o melhor é responder a verdade.
Assim, eu disse "sim, eu sou virgem". A gritaria e o questionário terminaram e começaram os cochichos. Eu continuava o centro das atenções, mas agora eu era o centro de uma roda em silêncio. Todos pareciam tratar estratégias, mas Dinho, já que foi ele que fez a pergunta, se sentiu no direito de agir mais rápido. Me puxou pelo braço e me levou para um canto. A virgindade não foi mais assunto. Conversamos muito, beijamos, bebemos, e quando estava perto das 3 da manhã, fomos embora. Ele se ofereceu para pagar a minha conta na boite, e se ofereceu para pagar um táxi. Não me preocupei em dizer meu endereço para o motorista. Já sabia o que ele tinha em mente e concordava com isso. Paramos em uma casa com uma entrada velha. Passamos por um corredor feio e chegamos em um quarto pequeno, com um banheiro e uma cozinha, e completamente desorganizado.
Até aquele momento, o excesso de carinho que ele me dava me faziam pensar que ele fosse rico. Mas essa não era a questão. A conta paga, o táxi, era tudo um investimento. Eu era um cara virgem, coisa difícil de se achar, e valia a pena pagar por isso. Hesitei por um segundo, mas dei continuidade. Meia hora depois, eu tinha descoberto um novo mundo de possiblidades. Quando eu comecei a sair para o meio gay, achava que tinha encontrado um céu de possibilidades, mas depois desta noite, eu vi que após o céu, tem um universo.
Ainda meio zonzo, começo a juntar as minhas coisas. Dinho insistiu para que eu ficasse, dormisse alí. Dormi, mas tão logo acordei, já fui embora, deixando apenas um bilhete com o meu número de telefone do lado da cama. Ele não ligou. Isso não me assustou, nem me aborreceu. Para que me prender? Eu tinha encontrado o universo. Pouco tempo depois disso, num dia que minha casa estava vazia, entrei na internet para ver se encontrava outra pessoa para poder repetir a dose dessa droga que eu tinha me viciado. Foi então que eu encontrei Cacá. E foi alí que surgiu nossa amizade.
Amizade essa que hoje está suspensa, por causa de um soco no nariz. Ou talvez por causa de uma briga, que eu nem sei por que aconteceu. Tento ligar no telefone do Cacá de novo, novamente toca até desligar. Tento ligar para o Jonas, a mesma coisa. Como é que a gente foi chegar nesse ponto? Sempre fomos tão amigos.
O dia foi passando, com muita televisão, computador e remédios para dor de cabeça. Quando já estava de noite, eu tentei novamente, primeiro o Cacá, depois o Jonas. Nenhum dos dois me atende.
Cacá me deu um soco no nariz e não me atende. Jonas não consegue mais ficar do meu lado. Existe uma noite inteira que não está na minha memória. Foi aí que eu resolvi tomar uma atitude drástica. Peguei o carro e dirigi até a casa do Jonas
- Jonas, entra aqui.
- Que foi, Lucas?
- Entra no carro, a gente vai dar uma volta
- Não, Lucas! Você tem que parar com isso, a gente é amigo.
- Parar com isso o que? Você tá louco? A gente vai dar uma volta...
- Cara, eu não quero ser mal educado com você, vamos deixar isso pra lá, isso nunca vai dar certo...
De repente, uma grande ficha caiu. Estava tudo tão óbvio, como eu nunca percebi isso antes?
- Jonas, você pensa que eu tô dando em cima de você?
- Ahn, cara, vamos escquecer isso, a gente não fala mais sobre o assunto, a gente pode parar de sair por uns tempos pra ver se você deixa isso...
- Jonas, eu não estou dando em cima de você!!
- Ahn, mas...
- Entra aqui, vamos dar uma volta
E saímos em direção à casa de Cacá
- Como é que você pode pensar que eu tava dando em cima de você? A gente é amigo a tanto tempo...
- Ahn, não sei, cara. Eu tô confuso... Você sabe, você é diferente... Você é mais...
- Mais? Eu sou mais o que?
- Não sei como dizer, você vê as coisas diferentes do que eu.
Uma veia que eu nem sabia que existia começou a pulsar na minha cabeça
- Você tá querendo dizer que eu sou atirado, vagabundo, durmo com qualquer um, não tenho critério...
- Não generaliza, Lucas, eu não disse isso... Só tô dizendo que você é mais pra frente...
- Pra frente?? Você vai pra balada e fica com 2, 3, igualzinho a mim!!
Jonas não sabe mais o que falar. A tensão no ar é tão densa que podia ser tocada. Jonas vive em seu próprio mundo, onde não se fala sobre sexo, e talvez nem se faça sexo. Qualquer pessoa fora deste mundo é um vagabundo que deita com o primeiro que vê pela frente. E mesmo se deitasse, qual o problema?
Sempre fomos muito diferentes. Sim, talvez parte do que o Lucas tenha falado tenha sentido. Mas pensar em dar em cima de meu amigo, que eu conheço a anos, é ultrapassar qualquer limite. Pode me chamar de qualquer coisa, mas este limite eu nunca ultrapassaria.
O discurso está pronto na minha boca, mas acho melhor não falar. Os sentimentos acumulados podem me forçar a dizer essas coisas num tom mais agressivo que eu faria numa situação normal.
No mais, eu só paro o carro em frente à casa de Cacá.
- Liga para o Cacá, fala para ele chegar aqui fora
Poucos segundos depois de Jonas discar, Cacá aparece do lado de fora. Jonas fala para ele entrar e ele senta no banco de trás, sem hesitar, mesmo depois de ver que eu estava dirigindo.
Antes de começar qualquer outra discussão, descarrego todo os meus sentimentos
- Cacá, sei que você está com raiva de mim, eu não sei o que eu fiz, mas me desculpe. Não sei o que aconteceu ontem, não consigo lembrar, mas mesmo assim peço desculpa, e acho que você também me deve desculpa pelo soco no nariz que você me deu.
O carro vira a esquina duas quadras depois. Cacá parece sem muita vontade de dar um pedido de desculpa:
- Olha, Lucas. Ontem foi a gota d'água, eu não aguento mais essas brincadeiras. A gente já conversou sobre isso, e eu já pedi pra você parar com esse apelido...
O carro para num semáforo. Sei que deveria estar sendo compreensivo, mas não consigo. A tensão que havia diminuido, começou a aumentar de novo:
- Conversou sobre o que? É sobre aquela história de "princesa"? A gente nem conversou sobre isso? Você deu um chilique e a gente ficou sem entender
- Cala a boca, Lucas. Você não sabe o que tá falando
O semáforo abre. Jonas resolve entrar na discussão
- Ele tem razão, Cacá. Você se alterou demais. Não tem como a gente te compreender, se a gente nem sabe o que ta acontecendo
- Não entra no assunto, Jonas, eu não quero brigar com você também
O carro faz uma curva, em direção a um viaduto. Eu não consigo me controlar:
- Pois é, Cacá! O que tá acontecendo, pô? Fala com a gente. Você só tá fazendo que esse clima ruim continue por mais tempo. Você não confia na gente??
O carro entra no viaduto. Cacá parecer não preocupar em manter o respeito na conversa:
- Confiança?? Você vem me falar de confiança? Tem outros valores nessa amizade que já se perderam, não? Como o respeito! Eu só pedi para esse assunto não ser mais tocado, e olha o que vocês fazem? Me sequestram no meio da noite para poder me fazer esse interrogatório
- Sequestro? Interrogatório??? Acho que amigos preocupados agora mudou de nome? Bom saber o rumo que essa nossa amizade tomou
Nesse momento, Jonas dá um grito. Seu olhar está fixo em algum lugar do lado direito do viaduto.
- Gente! GENTE!! Tem uma pessoa alí! Tá do lado de lá da ponte, parece que vai pular...
Um vulto se segurava por apenas uma mão, parecia estar preste a saltar dalí. Embaixo, somente asfalto a uns 7 metros de altura. Eu acelero o carro e paro do lado do vulto. Enquanto ainda tirava o cinto, Jonas disse algo que fez meu coração parar por alguns segundos:
- É o Diego
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